Nota Histórico-Artistica
Imóvel
Implantado na Avenida do Restelo, uma das principais artérias do bairro com o mesmo nome, em Lisboa, a moradia número 29 desenvolve-se numa planta retangular dividida em quatro pisos, incluindo cave e sótão, com corpo quadrado saliente do lado direito da fachada posterior e ladeada por jardim.
Construída entre 1947 e 1950, a moradia destinava-se originalmente a "dois moradores, um em cada pavimento, ficando o morador do rés do chão com metade da cave e o morador do 1º andar com a outra metade e o sótão", cujas serventias se faziam através de escadas interiores. Atualmente, o edifício alberga uma residência diplomática.
Com uma estrutura inspirada na arquitetura solarenga do século XVII, o edifício ergue-se como um grande palacete neo-barroco, que exteriormente não denuncia a divisão em dois fogos originalmente proposta. A fachada principal, disposta longitudinalmente, divide-se em três panos marcados pela abertura regular de janelas. O da esquerda, de maiores dimensões, apresenta janelas com frontão de volutas no piso superior, exibindo duas varandas de pedra ao centro; à direita, dois tramos mais estreitos delimitados por pilastras rusticadas, o intermédio com varanda alpendrada no piso térreo e balcão de pedra no superior, ambos revestidos de azulejos em torno da moldura das janelas; e o da extremidade direita, com a porta de entrada desenhada como um portal, com frontão retangular em pedra encimado por uma janela. A fachada posterior é rasgada por diversas janelas, apresentando pequeno alpendre no piso térreo. No programa original estavam também integradas dependências externas, que correspondiam a duas "garages", dois galinheiros e uma casa do guarda.
A segmentação dos espaços interiores é semelhante em cada um dos andares, formando um apartamento por piso dividido em dez assoalhadas e intercalado pelo corredor, que atravessa os espaços a partir da fachada lateral direita, onde se situam os vestíbulos, até à fachada lateral esquerda; do lado da fachada principal encontram-se as salas de lazer e convívio, e na área fronteira, que deita para o tardoz, os quartos, as zonas de w.c. e o corpo da cozinha.
História
Construída na primeira fase de edificação do bairro que urbanizou a encosta da Ajuda nos anos posteriores à Exposição do Mundo Português de 1940, a moradia com o número 29 da Avenida do Restelo era pertença de Cristina Laura de Oliveira Verde, prima do poeta Cesário Verde, casada com o visconde de Algés.
Em dezembro de 1947, a viscondessa dirigia à Câmara de Lisboa o pedido para edificar "uma vivenda para dois moradores no seu terreno (¿) no Bairro Residencial da Ajuda", apresentando um projeto de Manuel Joaquim Norte Júnior. Cerca de um ano e meio depois, em julho de 1949, a proprietária efetuava novo pedido ao executivo, por forma a realizar "algumas alterações no seu prédio em construção", nomeadamente uma segunda sacada na fachada principal, mudança de tabiques de divisão entre assoalhadas (eliminação de uns, criação de outros), supressão de umas escadas exteriores traseiras, e localização de quartos de banho. Em outubro do ano seguinte, a obra ficava concluída, com a requisição das vistorias finais.
A casa da Viscondessa de Algés foi a última de um conjunto de cinco moradias projetadas por Norte Júnior para o Bairro do Restelo, todas obedecendo ao modelo da casa portuguesa. De todas, este "palacete" é sem dúvida o que apresenta maior proximidade à arquitetura barroca, recriando uma tipologia solarenga do período pós-Restauração.
Norte Júnior, o arquiteto que nas primeiras décadas do século XX trouxe para Lisboa a modernidade e elegância do Ecletismo, da Arte Nova e do Déco, aproximou-se, nestas obras finais da sua carreira, de um gosto nacionalista austero e pouco aberto à efusão decorativa tão característica da sua obra, agradando assim às novas clientelas burguesas do Estado Novo.
Catarina Oliveira
DGPC, 2015
Diploma de Classificação
Abrangido pela zona especial de proteção conjunta da Capela São Jerónimo, da Capela de Santo Cristo, do Palacete na Rua de Pedrouços, 97/99, e do Edifício na Rua de Pedrouços, 84/88-A