Nota Histórico-Artistica
A igreja do Castelo é um dos mais importantes templos medievais da região de Lisboa e um dos que melhor simbolizam a progressão e organização dos territórios conquistados após 1147. As suas origens são, contudo, objecto de discussão, uma vez que não estão esclarecidas as fases ocupacionais pré-cristãs. Crê-se que o castelo seja de origem muçulmana e que, no local onde hoje se ergue a igreja de Santa Maria, existisse uma mesquita que servia a medina, mas nada foi, até ao momento, provado arqueologicamente. Em 1718, encontrou-se um túmulo, cujo cadáver estava acompanhado por um alfange, mas, na ocasião, optou-se por soterrar de novo estes vestígios.
Depois das conquistas de Lisboa, Sintra, Almada e, também, Torres Vedras, deu-se início à construção da actual igreja. Dessa primeira fase restam importantes vestígios românicos, acompanhados de uma inscrição que data a obra, o que se revela de extrema importância para a caracterização do chamado Românico meridional, aquela fase artística que coincide com a primeira organização cristã dos territórios entre Coimbra e Lisboa, durante a segunda metade do século XII.
O portal principal, de duas arquivoltas, conserva as impostas e os dois capitéis originais. Estes têm analogia com os capitéis do portal lateral Norte da Sé de Lisboa, apresentando campo escultórico decorado com finas hastes vegetalistas, que deixam grandes espaços livres, e pombas que debicam os frutos dessas hastes. Apesar destas semelhanças, é notória a menor qualidade das realizações de Torres Vedras, que denunciam uma "obra provinciana, esculpida com certa dificuldade" (REAL, 1982-83, p.538).
O portal lateral Sul apresenta a mesma concepção do principal - em particular o mesmo tipo de impostas -, mas encontra-se parcialmente coberto por uma solução posterior, já da época moderna, facto que não permite vislumbrar o arco interior. Na ombreira nascente, existe a inscrição funerária de Mestre Mendo, "possivelmente o arquitecto da igreja", cujo texto remete para a data de 11 de Outubro de 1208 (BARROCA, 2000, t.1, vol.I, p.642). O conteúdo deste letreiro é fundamental para datar a obra românica da igreja, mas também para caracterizar quer a da Sé Catedral de Lisboa quer as de São Pedro de Sintra e de Leiria, servindo a de Torres Vedras como director cronológico fundamental.
Ao longo dos séculos, a igreja foi muito modificada. Desconhecendo-se outras campanhas medievais (que eventualmente terão ocorrido no século XIV, altura em que se instituiu a importante confraria das Ovelhas dos Pobres), só no século XVI existe notícia de novas obras. Data da primeira metade da centúria a pia baptismal e um retábulo renascentista, de que se conservam cinco tábuas, atribuídas ao pintor Gregório Lopes. No século seguinte, por volta de 1662, deram-se novos trabalhos, entre os quais se conta o revestimento azulejar da sacristia e a grande pintura alusiva à Ressurreição que se expõe no coro-alto, uma realização, ao que tudo indica, de origem italiana. As obras continuaram antes e depois do terramoto de 1755, havendo notícia de que as torres da fachada principal ruíram no sismo. O interior, de planta longitudinal de nave única e capela-mor rectangular, apresenta uma configuração rococó, datando da segunda metade do século XVIII os vários retábulos que pontuam o espaço.
As várias campanhas de restauro que se processaram no monumento não alteraram radicalmente o seu aspecto. Em 1959 e em 1963 deram-se trabalhos de consolidação. Mais vastas foram as intervenções de 1974-75, que actuaram sobre os pavimentos, telhados, marmoreados da capela-mor e demais elementos decorativos, com destaque para as pinturas. A última grande campanha restauradora ocorreu na década de 90 do século XX, cujos trabalhos se alargaram às dependências anexas (casa do guarda, cartório, etc.)
PAF