Nota Histórico-Artistica
O Verão de 1995 estabeleceu, pelas razões que foram amplamente difundidas a seu tempo, uma fronteira bastante explícita na política de património conduzida até então entre nós e no estatuto da própria Arqueologia (BAPTISTA, A.M., GOMES, M. V., 1995, p. 49).
No vale do Côa, encontramos, o ar livre, inúmeras expressões artísticas "pré-históricas" e "históricas", colocando à disposição dos especialistas em Arte rupestre uma diversidade documental paulatinamente datada, com base em critérios estilísticos, estratigráficos (através da análise das figuras sobrepostas) e na identificação das espécies animais representadas, nas quais sobressaíam o cavalo, o auroque e a cabra montês. Factores estes que, no conjunto, permitirão afirmar estarmos numa região onde a Arte paleolítica, em especial, foi executada ao longo de vários milénios, desde o "Gravetense" (há cerca de 24 ou 25 mil anos) até ao "Magdalenense" (há 10 ou 12 mil anos) (CARVALHO, A.F., ZILHÃO, J. e AUBRY, Th., 1996, p. 29).
Apesar do indiscutível impacte que as demonstrações de Arte paleolítica identificadas no Côa alcançaram no seio da comunidade científica nacional e internacional, a valência do Vale não se circunscreveu a este período extenso da História da Humanidade. Pelo contrário, uma das principais riquezas desta vasta região peninsular consistirá, precisamente, no facto de ter sido eleita como local de permanência, mais ou menos contínua e expressiva, por parte de diferentes comunidades humanas, ao longo de milénios, num testemunho inequívoco da sua força cinegética, ao mesmo tempo que de uma contínua (re)apropriação da simbologia aduzida pela paisagem em que se fixavam. Uma constatação que levou alguns autores a afirmarem que, "Neste momento, pode falar-se de um longo "ciclo" artístico, genericamente designado por "Ciclo Artístico do Côa e Alto Douro" [...] certamente um dos temporalmente mais extensos até agora conhecidos na Europa [que] não deve ser entendido, porém, como um continuum histórico [...]. Ele será, acima de tudo, o remanescente artístico e ideológico das sucessivas culturas e civilizações que se sucederam nesta zona [...]."(MARTINHO, A. M. B., GOMES; M. V., 1997, p. 213).
E, na verdade, os testemunhos ocorridos já em plena Pré-história Recente, confirmarão este quadro e esta tendência, como constatamos no "Conjunto dos Sítios Arqueológicos do Vale do Côa" localizado no concelho de Figueira de Castelo Rodrigo.
Maioritariamente identificados na área actualmente abrangida pela "Quinta da Moreirola", os arqueossítios identificados até ao momento evidenciam a presença humana de modo, mais ou menos, contínuo na região, desde o Paleolítico superior, passando pelo Neolítico até às Idades do Bronze e do Ferro. Não surpreenderá, por conseguinte, que emirja a representação filiforme de um caprídeo na superfície da face vertical de um afloramento rochoso, associada a linhas horizontais atribuíveis ao primeiro daqueles períodos, enquanto as intervenções neolíticas se materializam em elementos esquemáticos executados a ocre num painel de quartzito. Quanto aos dados eventualmente datáveis das Idades do Bronze e/ou do Ferro, eles reportam-se a elementos filiformes, geometrizantes, perfazendo zigue-zagues e linhas paralelas que se interceptam pontualmente.
[AMartins]