Nota Histórico-Artistica
No vale do Côa, encontramos, o ar livre, diversas expressões artísticas "pré-históricas" e "históricas", ainda que pareçam incidir especialmente sobre uma baliza cronológica compreendida entre o "Gravetense" (há cerca de 24 ou 25 mil anos) e o "Magdalenense" (há 10 ou 12 mil anos) (CARVALHO, A.F., ZILHÃO, J. e AUBRY, Th., 1996, p. 29).
Foi entre Setembro e Novembro de 1996, por ocasião da campanha de prospecção e de levantamento documental da área da rib.ª de Piscos, no seguimento do protocolo de colaboração estabelecido em 1992 entre o IPPAR e a EDP, com vista ao acompanhamento arqueológico das obras de construção da barragem, que foi identificado um conjunto de rochas gravadas na margem esquerda, com base na metodologia anteriormente adoptada nos núcleos da "Canada do Inferno" e da "Penascosa" (ZILHÃO, J., 1997, p. 307), proporcionada pelo esgotamento das águas do Côa, que permitiu colocar a descoberto uma parte considerável de ambas as margens (Id., Idem, p. 217). Procedeu-se, então, à averiguação dimensional das jazidas, ao reconhecimento das rochas gravadas e à identificação das figurações nelas presentes, ao mesmo tempo que eram fotografadas e o processo de decalque integral, em plástico, decorria durante a noite, por facilitar a detecção das gravuras, em grande parte graças à utilização da luz rasante.
Integrando o "Conjunto dos Sítios Arqueológicos no Vale do Rio Côa", o "Núcleo de Arte Rupestre da Ribeira de Piscos/Quinta dos Poios" é constituído por um grupo de rochas gravadas atribuídas ao Paleolítico superior. E vários são, na realidade, os processos de datar o passado Pré-histórico, desde a "datação relativa" à "datação absoluta": enquanto aquele (aplicado em Geologia desde o século XIX) se baseia na interpretação das sequências estratigráficas, atribuindo "[...] uma posição determinada no interior desse sistema de periodização a um achado, contexto ou sequência parcial." (CARVALHO, A.F., ZILHÃO, J. e AUBRY, Th., 1996, p. 13), a datação "absoluta", inventada após o terminus da II Grande Guerra, é alcançada em laboratório, através da análise radioactiva de determinados elementos químicos, a conhecida datação por Carbono 14 (C14). Além disso, um dos critérios de datação da Arte parietal reside na identificação das espécies extintas, ou daquelas que terão habitado apenas uma área mais circunscrita durante a Época Glaciar, juntamente com a aferição das convenções utilizadas na representação (ZILHÃO, J., Idem, p. 16), um método que acaba por ser o mais recorrente, "[...] um procedimento análogo ao que os antiquários e os historiadores utilizam para determinar a autoria de pinturas não assinadas ou, de um modo mais geral, para datar um edifício, uma obra de arte ou uma peça literária." (Id., Idem, p. 19). E este tem sido o procedimento mais utilizado na datação das gravuras do Vale do Côa, a par da sua análise estratigráfica, possibilitada pela sobreposição figurativa.
Ainda que menos numerosas do que as localizadas na "Canada do Inferno", as figuras identificadas na rib.ª de Piscos serão das mais conhecidas e divulgadas de todas quantas foram registadas, até ao momento, no Vale do Côa. Notoriedade esta que em muito se deve aos motivos representados, bem como ao modo como foram realizados: um painel com dois equídeos de cabeças cruzadas, obtidas através da picotagem de negativos largos e profundos, de modo a formarem traços contínuos; uma figura humana, representada de pé, voltada para o lado direito e com a cabeça gravada de perfil, e um auroque disposto na horizontal e voltado para o lado direito, com o corpo e a cabeça preenchidos com traços filiformes, mais ou menos oblíquos, a par, entre outros elementos, de uma corça gravada a traço filiforme múltiplo, também ela voltada para o lado direito. A uma cota mais elevada, encontra-se outro painel com gravuras filiformes representando quatro equídeos de acentuado realismo.
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