Nota Histórico-Artistica
Banhado, a Norte, pelo Rio Douro e fortemente marcado pela Serra de Montemuro, o território correspondente, na actualidade, ao concelho de Resende acumulou vestígios da passagem e fixação de comunidades humanas que o procuraram ao longo dos tempos em razão dos recursos cinegéticos essenciais à sua sobrevivência, como testemunham as várias estações arqueológicas, entre outras, pré-históricas e romana.
Mas foi, certamente, de igual modo graças à particularidade do seu relevo, proporcionando um domínio visual sobre Baião, Mesão Frio e parte da Serra do Marão, que as gentes buscaram o seu termo desde o período romano, até por deter as características essenciais a acções de defesa militar.
Não surpreende, por conseguinte, que as terras de Resende assistissem à edificação, por exemplo, de templos românicos, no seguimento de toda uma tradição construtiva bem presente na sua paisagem, como no caso da "Igreja Matriz de Cárquere", à semelhança das igrejas de Santa Maria de Barrô e de São Martinho de Mouros.
Erigido de forma isolada numa meia encosta, com cemitério adossado, ocupando o primitivo claustro do mosteiro, nas proximidades de uma área com abundantes materiais romanos, o templo alberga imagem de Nossa Senhora de Cárquere atribuída aos séculos VI/VII, numa evidência de como o seu culto na região viseense já se fazia na época anterior à formação da nacionalidade.
Data, contudo, do século XII a fundação do Convento, por iniciativa de Egas Moniz (c.1080-1146), célebre "Aio" de D. Afonso Henriques (1109-1185), de quem obteve a honra de Resende, albergando, já no último quartel de duzentos, os cónegos regrantes de Santo Agostinho, até que, em 1541, D. João III (1502-1557) o doou à Companhia de Jesus que assim obtinha o seu primeiro espaço em Portugal, posteriormente incorporado no património da Universidade de Coimbra, com as reformas pombalinas, antes de ser integrado nos Bens Próprios Nacionais, em 1835. Não obstante, outras fontes parecem apontar o ano de 1099 como o da fundação do mosteiro, por parte do Conde D. Henrique (ALMEIDA, J.A. F. de, 1976, p. 174).
Formada por nave única de planta longitudinal e cobertura de madeira, a igreja, inscrita no ciclo manuelino, encerra capela-mor, gótica, com abóbada de nervuras, dela separada por arco triunfal de três arquivoltas apoiadas em colunas e coroado por fenestras, exibindo retábulo-mor executado em talha dourada tripartido por colunas torsas desenvolvidas em arquivoltas, alojando, ao centro, o trono e duas mísulas decoradas nos eixos laterais. E é pela capela-mor que se acede à sacristia através de arco ogival rasgado no lado do Evangelho, contendo arca tumular. Lado este que ostenta algumas das peças mais interessantes do templo. Referimo-nos à pia baptismal profusamente decorada com motivos vegetalistas e cordas em espiral, mas também à capela funerária dos Senhores de Resende, com quatro arcas tumulares, duas das quais embutidas em arcossólios.
No exterior, destaca-se o portal principal de volta perfeita com três arquivoltas assentes em colunelos e arco conopial sobrepujado por óculo, a par da torre sineira adossada ao alçado direito.
A relevância atribuída por estetas e investigadores portugueses de oitocentos formalizou-se em 1910, com a sua inclusão na primeira lista de edifícios antigos a classificar como "monumentos nacionais".
[AMartins]