Nota Histórico-Artistica
Mais vulgarmente conhecida por "Casarão da Torre", "Torre dos Frades" e "Torre das Águias" (ou Turris Aquilaris), as "Ruínas de Almofala" terão sido primeiramente referidas pelo general João de Almeida (1873-1953) (GARCIA, J. M., 1965, p. 223), historiador e investigador local, autor do Roteiro dos Monumentos Militares , e sobre quem, em 2004, a autarquia da Guarda promoveu uma exposição bio-bibliográfica intitulada "João de Almeida Pensador da Portugalidade", numa confirmação do empenho e do papel, frequentemente de relevo, assumidos por entidades locais e/ou regionais mais sensíveis às temáticas patrimoniais e munidas dos imprescindíveis conhecimentos à identificação, no terreno, de algumas das suas tipologias.
Mas se é a este autor que se deve a interpretação de Almofala como torre de alvenaria que servira de atalaia em plena Idade Média, sublinhando, então, a possibilidade de integrar a torre de menagem de uma fortaleza medieval, foi na sequência das escavações arqueológicas empreendidas no local, entre finais dos anos oitenta e noventa do século XX, que se obteve um quadro mais aproximado à realidade primeva da sua edificação.
Com efeito, as investigações conduzidas à época (maioritariamente coordenadas por Helena Frade) revelaram testemunhos da provável existência de uma antiga cidade romana, até então desconhecida, que teria sido capital da civitas (a unidade político-administrativa romana, por excelência, correspondendo, grosso modo, ao actual conceito distrital, atendendo, sobretudo, à área que normalmente abrangia) dos Cobelcos, um povo do qual não se detinha quaisquer referências. Uma situação que obrigaria, no fundo, a reavaliar a distribuição das cidades existentes durante a presença romana no actual território português, ainda que aquela possibilidade não devesse propriamente surpreender, uma vez que, à semelhança dos restantes recessos portugueses, também aqui o processo de romanização alcançou alguma visibilidade.
Estamos, por conseguinte, perante os vestígios da Civitas Cobelcorum, como se comprovará pelo conteúdo de uma ara epigrafada dedicada ao deus Júpiter.
Com os primeiros níveis de ocupação atribuídos ao século I d. C., a estrutura conhecida por "Torre de Almofala" (orientada a nascente e ultrapassando os nove metros de altura) seria, na realidade, um templo romano transformado em atalaia, servindo de torre de vigia já no final da Idade Média e em plena modernidade, entre as centúrias de XV e XVII, num exemplo paradigmático de como, perdidos há muito os seus significado e utilização originais, as edificações abandonadas acabariam quase sempre por ser reutilizadas em nome de uma compreensível e lógica economia de recursos, neste caso, materiais. O templo romano terá, então, terminado "[...] seus dias como Torre [...] sentinela avançada e posto de vigília da velha praça-forte leoneza, a bem portuguesa vila muralhada de Castelo Rodrigo [...]." (CABRAL, 1965, p. 425).
A memória dos seus primeiros construtores e fruidores manteve-se, porém, nalguns materiais construtivos, a exemplo do podium (e respectivos cunhais) interiormente reforçado com um muro de xisto, com cerca de dois metros e sessenta e cinco de altura, construído com silhares graníticos, ao qual se acedia através de uma escadaria desenvolvida a partir da fachada nascente, a julgar pelos vestígios das respectivas fundações, aparelhadas do mesmo modo.
Do espólio recolhido, sobressaem fragmentos de cerâmica romana, designadamente de terra sigillata hispânica, datada do século IV, a par de fracções de estatuária que se encontraria na área ocupada pelo templo. Além destes, foram encontrados elementos cerâmicos reportáveis aos períodos de ocupação medieval e moderna (vide supra), altura em que foram também reutilizados trechos arquitectónicos romanos nas edificações então erguidas, destinadas a quem competia manter a torre operacional.
[AMartins]