Nota Histórico-Artistica
Foi, em grande parte, na continuidade da redacção, em 1989, por parte de Francisco Sande Lemos, do primeiro relatório de estudo de impacte patrimonial da construção da futura barragem do Côa, que despontou uma ampla e acesa polémica, que acabaria por trasbordar as próprias fronteiras portuguesas, em pleno processo de reconhecimento dos vestígios arqueológicos realizado ao abrigo de um protocolo de colaboração firmado em 1992 entre o IPPAR e a EDP, que visava o acompanhamento arqueológico das obras, da responsabilidade de Nelson Rebanda, na qualidade de arqueólogo afecto à Direcção Regional do Porto daquele Instituto. Dava-se, assim, início ao conhecido "Projecto Arqueológico do Côa", graças ao qual foi possível acelerar a identificação das primeiras gravuras rupestres datáveis do Paleolítico superior, ao mesmo tempo que a confirmação da existência de outras anteriormente referidas no relatório supracitado (vide supra) (BAPTISTA, A.M., GOMES, M.V., 1995, pp. 46-47).
Estava, enfim, aberto o caminho à investigação de uma das regiões mais férteis ao nível das manifestações artísticas constitutivas da denominada "Arte parietal", em termos, quer cronológicos, quer estilísticos, quer, ainda, quantitativos. Mas não só, pois, a par desta diversidade, o Vale do Côa trouxe ao conhecimento da comunidade científica internacional, e do pública, em geral, uma Arte parietal retirada do fundo das cavernas e das grutas (às quais parecia encontrar-se confinada até então) para o seio de uma paisagem carreada, ela própria, dos mais variados significados e forças, criando aquilo que se passou a designar por "santuários" ao ar livre (CARVALHO, A. F., ZILHÃO, J., AUBRY, Th., 1996, p. 53).
No vale do Côa, encontramos, o ar livre, variadas expressões artísticas "pré-históricas" e "históricas", colocando à disposição dos especialistas em Arte rupestre uma multiplicidade documental paulatinamente datada, com base em critérios estilísticos, estratigráficos (através da análise das figuras sobrepostas) e na identificação das espécies animais representadas, nas quais sobressaíam o cavalo, o auroque e a cabra montês. Factores que permitirão afirmar estarmos numa região onde a Arte paleolítica, em especial, foi executada ao longo de vários milénios, desde o "Gravetense" (há cerca de 24 ou 25 mil anos) até ao "Magdalenense" (há 10 ou 12 mil anos) (Id., Idem, p. 29). Quanto às épocas subsequentes, não foram identificados até ao momento testemunhos mesolíticos, contrariamente aos neolíticos , calcolíticos e da Idade do Ferro, que parecem abundar.
E, destes últimos, faz parte o "Núcleo de Arte Rupestre do Vale da Figueira/Teixugo", um dos elementos integrantes do "Conjunto dos Sítios Arqueológicos no Vale do Côa", classificado como "Monumento Nacional", em 1997, e inscrito na Lista de Património Mundial, da UNESCO, em 1998. Constituído por um abrigo natural, este núcleo Neo-calcolítico apresenta gravuras compostas de elementos lineares e fusiformes, para além de uma pequeno painel com vestígios de pintura esquemática de um antropomorfo, executada a ocre vermelho, identificados ainda no âmbito da prospecção conduzida em 1989 por Francisco Sande Lemos (vide supra).
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