Nota Histórico-Artistica
A afirmação da Pré-história, enquanto disciplina, e da Arte paleolítica, em particular, resultou de um longo caminho pleno dos mais variados episódios, a maioria dos quais ponteada por um profundo cepticismo relativo à autenticidade das realidades paulatinamente identificadas no terreno pelos investigadores, nomeadamente por interferirem em dogmas propagados durante séculos pela Igreja Católica.
E passadas que se encontravam várias décadas sobre o auge dos debates mantidos em torno destas temáticas, o Vale do Côa relançou a discussão, já não propriamente sobre aquelas questões, mas acerca da veracidade cronológica das manifestações artísticas reconhecidas por arqueólogos portugueses no âmbito do "Projecto Arqueológico do Côa", desenvolvido em meados dos anos noventa, ao mesmo tempo que transforma a Arqueologia num dos temas mais recorrentes da comunicação social da época, projectando socialmente o exercício arqueológico de modo exemplar, assim como a própria política patrimonial conduzida entre nós (JORGE, V. O., 1995, p. 355).
E as razões deste interesse generalizado dificilmente poderiam ser mais evidentes, porquanto presenciávamos um dos conjuntos mais expressivos de Arte rupestre, de todos quantos tinham sido até então localizados, não apenas no actual solo europeu, como em termos mundiais. Mas não só, pois as manifestações artísticas do Paleolítico superior do Vale do Côa diversificaram a visão que, de um modo geral, se detinha da Arte parietal, confinada, até então, às grutas, das quais sobressaíam os emblemáticos sítios de Altamira (Espanha, 1879) e Lascaux (França, 1940), após um longo período em que parte considerável da comunidade científica da época mergulhou numa profunda descrença e incerteza, sentimentos bem protagonizados pelo eminente pré-historiador francês Émille Cartailhac (1845-1921), o mesmo que, em 1902, publicou o Les caves ornées de dessins. La grotte d'Altamira. Mea culpa d'un sceptique (Mea culpa de um céptico), onde reconhecia, finalmente, a atribuição paleolítica das pinturas de Altamira.
Apesar destes episódios fundamentais na História da Arqueologia, ao mesmo tempo que da Ciência e das Mentalidades, a verdade é que o Vale do Côa abriu, não uma página, mas todo um novo capítulo no estudo da Arte parietal do Paleolítico superior, ao revelar e/ou confirmar a sua profusa representação ao "ar livre", numa perfeita simbiose com a paisagem envolvente, ela própria carreada dos mais profundos significados e simbolismos, perfazendo, em conjunto, autênticos "santuários". Além disso, e contrariamente ao que sucedia noutros "santuários" de ar livre, no Côa surgia uma frequente sobreposição figurativa, o que parecia aproximá-la da Arte parietal característica das grutas e abrigos da região franco-cantábrica (CARVALHO, A. F., ZILHÃO, J., AUBRY, Th., 1996, p. 53).
Integrando o complexo arqueológico do vale do Côa, inscrito na lista de "Património Mundial" da UNESCO (1998), o "Núcleo de Arte Rupestre de Vale de Moinhos" ocupa as duas margens do afluente do rio Côa, com o mesmo nome, a jusante do local para onde se projectou construir inicialmente a barragem de Foz Côa. As prospecções realizadas, ainda em 1992, permitiram identificar o núcleo constituído por duas rochas com as superfícies gravadas com elementos filiformes, neste caso específico datáveis do período final do Paleolítico superior, ou seja, do Magdalenense. E, enquanto que as gravuras presentes na rocha localizada na margem esquerda (num abrigo sob "pala") se desenvolvem em torno de um equídeo, as da margem direita são essencialmente compostas de exemplares zoomórficos.
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