Nota Histórico-Artistica
Entre as várias propriedades existentes no concelho de Loures, a Quinta e palácio de Pintéus assumem espacial significado, não apenas pela sua importância arquitectónica, mas também por toda a história que se lhe encontra associada. É possível que no início do século XVII aqui tenha existido uma casa, erguida sobre os vestígios ou ruínas de um outro edifício, de cariz manuelino. O palácio que hoje conhecemos, remonta ao primeiro quartel do século XVIII, devendo-se à iniciativa de José Vaz de Carvalho, figura de relevo na história nacional, que desempenhou cargos tão elevados como os de Chanceler-mor do reino, Desembargador do Paço, e Secretário da rainha D. Mariana Vitória e do infante D. Manuel (STOOP, p. 72).
Permanecem, no entanto, algumas dúvidas sobre o alcance destas primeiras obras, pois outros autores atribuem o palácio ao neto de José Vaz de Carvalho, que tinha o mesmo nome (SIMÕES, 1979, p. 298). Os dados disponíveis não permitem esclarecer melhor esta questão, mas a verdade é que determinados elementos da Casa de Pintéus denunciam uma intervenção por parte de José Vaz de Carvalho, neto, definindo-se, assim duas grandes campanhas de obras. É a mulher deste último - D. Maria Rosa de Sá Azevedo Coutinho - que se encontra sepultada na capela da Quinta, conforme é referido no seu epitáfio, com data de 1794. Por sua vez, o brasão de armas, sobre a porta principal representa os Vaz de Carvalho e os Sousa Coutinho, unidos através deste casamento, o que nos leva a pensar que somente nesta data aqui teria sido colocado. Por fim, a própria configuração da fachada principal deixa adivinhar duas campanhas de obras distintas, como veremos a seguir.
O edifício desenvolve-se em L, com a fachada principal mais longa. Esta, denota uma enorme depuração, pois as janelas de ambos os pisos são de linhas rectas e sem qualquer decoração. Apenas o portal se destaca. É flanqueado por dois arcos de volta perfeita assentes sobre impostas salientes, e antecedido por uma escadaria de dois lanços convergentes, com volutas. A porta, de verga recta, é encimada por óculo e por um frontão de aletas (com folhas de acanto e outros elementos decorativos), a que se sobrepõe o já referido brasão, que se eleva até à linha da cornija. Estamos, assim, perante um alçado que concentra toda a sua exuberância no portal principal, de linguagem barroca, o que nos leva a questionar se esta composição não será fruto de uma intervenção posterior, remontando a fachada principal a uma época mais recuada.
Nos interiores, destaca-se o conjunto de azulejos que reveste boa parte dos salões - silhares azuis e brancos com representações de vasos floridos, cestos, etc, possivelmente de meados do século XVIII. Tal é o caso da Sala de Jantar, cujos silhares são interrompidos por uma fonte de mármore, linguagem rococó, com esculturas de Neptuno, de sereias e tritões.
No terraço, as paredes são revestidas por azulejos figurativos rococó, que ilustram as Quatro Estações. Santos Simões considera este conjunto notável, pela sua policromia, apontando como data provável o ano de 1780, e a proveniência a Fábrica do Rato, ou "qualquer outra das melhores de Lisboa" (SIMÕES, 1979, p. 299).
A capela, afastada e aberta ao culto local, é dedicada a Nossa Senhora da Apresentação. Os azulejos aludem ao Cântico dos Cânticos e, na nave, foram representadas paisagens com animais diversos, remontando todo o conjunto a c. de 1740. O retábulo é de talha dourada e a sepultura referida encontra-se no corpo do edifício.
Aqui habitou, mais tarde, a escritora Maria Amália Vaz de Carvalho, bem como a sua irmã, casada com um escritor, Cristóvão Aires de Magalhães.
(Rosário Carvalho)