Nota Histórico-Artistica
Beneficiando de um enquadramento paisagístico ímpar, o palácio dos duques de Palmela conserva, ainda hoje, a sua imponência arquitectónica, dentro do neogótico inglês, assumindo-se como uma importante memória da vivência de Cascais entre o final do século XIX e o início da centúria seguinte, quando esta vila se tornou na estância de veraneio da família real e, consequentemente, da corte portuguesa. Ao seu lado, o palácio dos marqueses do Faial (filhos do duque de Palmela), mais tardio, segue uma linha arquitectónica semelhante.
Quando, em 1871, D. Luís iniciou os trabalhos de remodelação da Cidadela, desencadeou um hábito de veraneio que vingou na sociedade da época, pois as principais famílias da corte iniciaram, poucos anos mais tarde, a construção das suas próprias casas. Na realidade, os desenhos para o palácio Palmela datam de 1871 e 1872, e não podemos esquecer que na mesma época os Loulé, outra das maiores famílias do reino, mandou, também, edificar a sua habitação à beira mar (FRANÇA, 2004, p. 182).
O baluarte de Nossa Senhora da Conceição, onde se ergue o palácio, estava então desactivado, e havia sido adquirido pelos Palmela ao Estado, em 1868 ou em 1869 (COLAÇO, ARCHER, 1943, p. 335; FALCÃO, p. 194; ANACLETO, 1992-94, p. 116).
Desenhado por um arquitecto inglês - Thomas Henry Wyatt -, o palácio Palmela deve ser entendido em função dos conhecimentos, viagens e gosto da terceira duquesa, D. Maria de Sousa e Holstein, principal impulsionadora da obra (ANACLETO, 1992-94, p. 117). Família de diplomatas, os Palmela mantinham muitos contactos com Inglaterra, conhecendo, com certeza, todo o desenvolvimento e fortuna alcançado pelo denominado gótico perpendicular inglês, aqui utilizado (ANACLETO, 1994, p. 192).
O arquitecto ter-se-á deslocado a Cascais com o objectivo de conhecer o local, uma vez que todo o cenário envolvente era sentido como fundamental na concepção do projecto. A entrega dos 30 desenhos (dos quais subsistem 16) terá ocorrido em 1873, iniciando-se os trabalhos ainda nesse ano ou no seguinte (ANDRADE, 1964, p. 304; COUTINHO, 1980, p. 121; ANACLETO, 1992-94, p. 120). A preocupação com o exterior encontra-se bem expressa na profusão de janelas e mirantes e nas bay-windows que se observam no palácio, procurando potenciar ao máximo a implantação junto ao mar. A planta é assimétrica, quase "espontânea", muito ao gosto dos arquitectos ingleses (dando ideia de recuperação de uma casa antiga e não de uma construção recente), desenvolvendo-se em volumes diferenciados, com telhados pontiagudos, e utilizando os materiais da região, como era prática em terras anglo-saxónicas (ANACLETO, 1994, p. 192). A fachada principal perde preponderência e todo o conjunto apresenta uma quase total ausência de elementos decorativos. Excepção feita à porta principal, sobrepujada pelo brasão de armas dos duques. No interior, um átrio ordena a distribuição vertical e horizontal do edifício (ANACLETO, 1992-94, p. 118).
Ao projecto inicial juntaram-se, na década de 80, outras intervenções, ao que se pensa, da autoria do arquitecto e mestre de obras José António Gaspar (ANACLETO, 1992-94, p. 121). Este, acrescentou dois corpos facetados e dois prismáticos, ao alçado Poente, com o objectivo de criar um espaço destinado a capela, não consignado no projecto de Thomas Henry Wyatt. A deficiência da obra levou a que, entre 1890 e 1895, os duques de Palmela encarregassem José Luís Monteiro de renovar esta ala, o que o arquitecto fez, subindo um piso nos corpos adossados ao edifício, e eliminando as coberturas dos dois prismas seguintes (ANACLETO, 1992-94, p. 122).
Na próxima travessa da Conceição, foi erguido, a partir de 1895, um edifício de apoio para cocheira e cavalariças, sob risco de Cesar Ianz.
Em redor da casa, desenvolvia-se um parque, relativamente arborizado e com alguns tanque e lagos, actualmente muito reduzido na sua antiga extensão.
(Rosário Carvalho)