Nota Histórico-Artistica
Situada entre Laveiras e o Murganhal, a Quinta do Jardim surge na documentação conhecida, pelo menos, desde 1712, ano em que o Padre António Carvalho da Costa se refere a uma quinta de grandes dimensões denominada por Jardim, e à sua ermida, dedicada a São João Baptista (COSTA, 1712, p. 649). As referências à capela mantêm-se nas fontes posteriores, nomeadamente em 1763, no Mappa de Portugal, do Padre João Baptista de Castro (CASTRO, 1763).
A edificação é, no entanto, anterior. Se as informações relativas a esta propriedade são muito escassas, os azulejos que se encontram no interior da casa de habitação permitem estabelecer uma cronologia relativa, e colocar algumas hipóteses que apenas um estudo mais aprofundado poderá ou não confirmar.
Pertenceu, inicialmente, tal como a próxima Quinta de Nossa Senhora da Conceição, aos Sinel de Cordes, família descendente "do flamengo João Baptista de Cordes, que veio para Portugal no reinado de Filipe II, no início do século XVII, como controlador do fisco real" (STOOP, 1986, p. 119). O núcleo mais antigo que hoje conhecemos é, sem dúvida, a capela, cujo frontal de altar, em azulejo, remonta ao final de Seiscentos (SIMÕES, 1997, vol. II, p. 134). Pintado em dois tons de azul, exibe, no pano central, a representação de São João Baptista com o Menino, flanqueado por paisagens com pastores, nos panos restantes. O excelente estado de conservação deste frontal indica que não foi alvo de alterações ou mudanças de local, mantendo-se aqui desde o final do século XVII. O retábulo de talha policromada (vermelho e ouro) é posterior, e substituiu, muito possivelmente, um outro retábulo contemporâneo do frontal. Já os painéis ilustrativos da vida do orago, que revestem o corpo da capela, os do corredor de acesso à casa e sacristia são uma produção bem posterior, polícroma e rocaille, da segunda metade do século XVIII (c. 1770) (SIMÕES, 1979, p. 311).
Por aqui percebemos como este complexo arquitectónico foi alvo de intervenções sucessivas, entre o final de Seiscentos e toda a centúria seguinte. A casa apresenta um núcleo do lado esquerdo da capela e um outro, à direita, aberto por um arco em asa de cesto, por onde passa a estrada que liga Caxias ao Cacém. Esta é, com certeza, uma das últimas intervenções, quando a necessidade de expansão e alargamento do edifício obrigou a construir sobre a estrada. De facto, os azulejos destas salas exibem um padrão já pombalino (SIMÕES, 1979, p. 311).
No seu interior, os azulejos que revestem as diferentes salas revelam exactamente as várias campanhas de obras ocorridas. Como já se percebeu, os mais antigos encontram-se na ala poente, onde encontramos azulejos de padrão, vasos floridos, de meados do século, surgindo os exemplos de figura avulsa nos compartimentos menos significativos (IDEM).
No exterior, o conjunto pauta-se por uma grande simplicidade e depuração, destacando-se a fachada da capela, com portal encimado por janela de sacada de verga curva, e varanda assente sobre mísulas. O frontão triangular é ladeado por fogaréus e, ao centro, ergue-se a cruz. O alçado da casa é aberto por janelas em ambos os pisos (de sacada no andar nobre), cuja divisão é acentuada por um friso que percorre toda a fachada.
Na segunda metade de Setecentos, os Sinel de Cordes juntaram-se, por laços familiares, aos Ludovice (ao que tudo indica descendentes do arquitecto de Mafra), cujo ramo manteve a posse da Quinta.
(Rosário Carvalho)