Nota Histórico-Artistica
Fundada cerca de 1530, dentro da cerca da Quinta da Várzea, a Capela de Nossa Senhora da Misericórdia é considerada o primeiro edifício totalmente renascentista construído na região de Coimbra. Este pequeno templo foi mandado edificar por D. Jorge de Meneses, conde de Cantanhede, para aí se fazer sepultar.
Desconhece-se o autor da traça da igreja, embora se perceba que a estrutura foi concebida de forma unitária, como se pode verificar na interligação entre a espacialidade da capela-mor e a disposição dos retábulos escultóricos. É uma igreja de estrutura simples, destacando-se sobretudo pelo projecto decorativo, da autoria de João de Ruão (BORGES, Nelson Correia, 1980).
A planimetria do templo desenvolve-se longitudinalmente, composta pelos volumes da nave, de secção rectangular, da cabeceira poligonal, e da sacristia, adossada à fachada lateral. A estrutura exterior do templo apresenta um modelo de grande simplicidade decorativa.
Na fachada principal destaca-se o portal, de moldura rectangular profusamente decorada com ornamentos ao romano, onde foram esculpidos dois medalhões com bustos. Sobre este foi aberto um óculo, e o pano murário é rematado em empena, à esquerda da qual foi colocada uma sineira. O portal lateral é também decorado na moldura, com relevos de motivos vegetalistas.
O espaço interior, de nave única, apresenta também uma estrutura muito sóbria, coberta por tecto de madeira. No espaço da nave destacam-se o arco triunfal, esculpido com motivos de grotesco, e os altares colaterais, inseridos em edículas e esculpidos em pedra de ançã, onde se representam São Sebastião, do lado do Evangelho, e São Roque, do lado oposto, ambos policromados. Estas duas obras terão sido executadas pelo oficina de João de Ruão, sendo de referir a harmonia entre estas peças e o retábulo principal. Junto ao pavimento, subsiste um friso de azulejos policromos quinhentistas.
No espaço da capela-mor foram abertas três janelas e a porta de acesso à sacristia, todas decoradas com relevos de grotesco. Ao centro, o retábulo-mor representa a Virgem da Misericórdia, com o manto seguro por dois anjos, protegendo altos dignatários da Igreja e membros da alta nobreza. O painel central é ladeado por colunelos e pilastras decoradas, assentando sobre uma predela onde foram esculpidas as imagens de Santa Bárbara, Santa Catarina, Santa Úrsula e Santa Apolónia, que apresentam vestígios de policromia.
Este retábulo, da autoria de João de Ruão, é considerado a "obra-mestra" do escultor normando (SERRÃO, Vítor, 2002, p. 148). Executado na primeira fase de produção do mestre, o retábulo da Varziela demonstra um gosto erudito, originado não só pela existência de um mecenato mais esclarecido, mas também por uma produção derivada da "(...) tradição da arte serena, calma, idealizada e prenhe do neoplatonismo florentino (...)" (DIAS, PEDRO, 1995, p. 24), que daria origem a uma evolução estilística notável.
Catarina Oliveira
GIF/IPPAR/ 12 de Maio de 2005