Nota Histórico-Artistica
A vetusta povoação de Rua foi uma honra de Egas Moniz, aio de D. Afonso Henriques, na primeira metade do século XII. Designada como Vila de Rua, chegou a ser cabeça do concelho de Caria (ou Caria e Rua), formado em 1512, por foral de D. Manuel. Em 1527, o Cadastro da População do Reino refere que a sede concelhia está em Caria, mas na segunda metade da centúria regressa a Rua. O concelho foi extinto em 1855, e em 1896 Rua foi integrada, como freguesias, em Moimenta da Beira. A localidade conserva ainda um exuberante pelourinho manuelino, testemunho da sua situação privilegiada à data do foral.
O pelourinho ergue-se num pequeno largo, diante da antiga Casa da Câmara. Assenta em plataforma de seis degraus oitavados, de rebordo boleado, o superior servindo de plinto à coluna. Esta possui fuste quadrado na base, ligeiramente saliente, e no primeiro troço, com cerca de um quarto da altura total. Daí para cima, a coluna segue com secção octogonal, conseguida através do chanframento das arestas. É ligeiramente galbada junto do topo. O capitel é cúbico, decorado com quatro cabeças de reis (coroadas) nos cantos, intrevalados por rosetas. A encimá-lo existe uma moldura quadrada, saliente, e finalmente o ábaco, idêntico mas de maior dimensão.
A peça de remate é verdadeiramente impressionante, tanto pela monumentalidade como pela decoração. Consta de um bloco semelhante ao capitel mas de maiores dimensões, que parece prolongá-lo, coroado por quatro pináculos cantonais e um central. O bloco inferior tem quatro vieiras nos cantos, mediadas por grandes florões. É encimado por ábaco ou tabuleiro formado por três molduras crescentes, com a zona central côncava, acompanhando o perfil dos elementos decorativos da base. Sobre cada canto do tabuleiro ergue-se um grande pináculo piramidal, ornada de molduras quadrangulares em três patamares, com pequenas mísulas cantonais. A peça central é semelhante, mas de dimensões superlativas; cada uma das suas faces é decorada com uma série de quatro cabeças aladas.
Como afirma Mário Guedes Real, as cabeças de reis encimadas pelas figuras angélicas poderão simbolizar a hierarquização do poder régio e do poder espiritual, bem como a harmonização das duas justiças, temporal e divina (Mário G. REAL, 1962, p. 83), e ainda a legitimação celeste da administração terrena. Os reis poderão representar monarcas bíblicos, símbolos de virtudes e do bom governo. Por fim, a presença das vieiras parece sugerir uma alusão ao Caminho de Santiago de Compostela. A Rota "francesa" de Santiago, cruzando o norte da Espanha, passava a fronteira em Escarigo, seguindo para Trancoso, e depois para Norte, passando justamente por Moimenta da Beira, a caminho de Lamego. Uma tradição local pretende mesmo que a futura fundação do Convento de São Francisco de Rua tenha sido profetizada pelo santo, que aí passara em peregrinação a caminho de Compostela.
O pelourinho é muito semelhante a outros do distrito de Viseu, nomeadamente os de Castelo, Fonte Arcada e Sendim, sendo no entanto o mais rico e grandioso de todos. Na verdade, apenas dois exemplares do género, estes na Guarda, se lhe aproximam em aparato: os de Ranhados (Meda) e Vila Nova de Foz Côa.
Sílvia Leite