Nota Histórico-Artistica
Imóvel
A casa do Administrador situa-se no largo Dr. Vitorino de Carvalho, na zona mais antiga da cidade de Ourém, outrora Vila Nova de Ourém. O edifício que corresponde a uma tipologia vernacular, foi construído no século XIX, destinando-se, inicialmente, a uma casa de habitação com dois pisos, sendo o piso superior equipado com uma varanda alpendrada, à qual se acedia através de uma escadaria. No séc. XX foi criada uma segunda escadaria exterior de acesso à varanda, numa altura em que se procede à subdivisão dos espaços. A casa era apoiada por um pátio delimitado por um muro e gradeamento de ferro. O imóvel que hoje se encontra muito alterado, relativamente à feição original, corresponde a um dos pólos do Museu Municipal de Ourém. Do edifício original foi preservada sobretudo a varanda alpendrada, tendo sido retirada a escadaria lateral e acrescentados novos volumes. Ao nível dos interiores o imóvel apresentava um estado de deterioração avançado, bem como grande número de alterações dos compartimentos, fatores que, segundo os responsáveis pela obra iconcluida em 2009, inviabilizam uma reconstituição da sua configuração original.
Hoje quem visita o imóvel pode percorrer um conjunto de salas que procuram desenvolver um discurso expositivo centrado nos Videntes, no Administrador e nos acontecimentos que decorreram na região durante a primeira metade do século 20, discurso este baseado num processo prévio de pesquisa histórica.
História
O edifício que correspondia à antiga habitação do Administrador do concelho, associa-se à história das aparições de Nossa Senhora de Fátima na região, visto identificar-se com o local onde ficaram alojadas, durante os interrogatórios a que foram submetidos, os três videntes, Jacinta, Francisco e Lúcia. De facto, Artur de Oliveira Santos proprietário de uma oficina de latoaria detinha, na época, o cargo de Administrador, tendo conduzido, por inerência do lugar que ocupava, o processo de averiguações sobre o fenómeno religioso que tanto clamor causou no país. Segundo relatos dos próprios videntes (Documentação Crítica de Fátima, p. 380-382), estes foram interrogados entre os dias 13 a 15 de agosto de 1917, sobre ameaça violenta por parte do responsável se não contassem a verdade sobre o segredo que lhes tinha transmitido Nossa Senhora, versão esta depois desmentida por Artur Santos.
Artur de Oliveira Santos nasceu a 22 de janeiro de 1884 na freguesia de N.ª Sr.ª da Piedade ficando conhecido como maçon e grande defensor do republicanismo, tendo inclusivamente fundado o Centro Republicano Democrático e a Comissão Municipal do Partido Republicano Português em 1907. Mais tarde, em 1911, desempenhou também funções de Presidente da Câmara de Vila Nova de Ourém.
Exerceu o cargo de Administrador deste concelho em 1915, 1917, 1919 e 1922, tendo depois cumprido o cargo de Delegado do Governo em 1924. Como jornalista e escritor fundou os jornais locais "Voz de Ourém" e Povo de Ourém", tendo colaborado em diversos jornais como "O Mundo", "A Vanguarda", "O País", "O Século", "A República", "A Capital", "O Diário", "A Voz da Justiça" entre outros. Em 1930, na sequência da revolução de 29 de maio de 1926, exila-se em Espanha aí permanecendo até 1939, vindo depois a falecer em Lisboa a 27 de junho de 1955.
Em 2003 o edifício da Casa do Administrador foi adquirido pelo Município de Ourém, tendo em vista a instalação de um espaço museológico que servisse simultaneamente a comunidade concelhia e os visitantes e peregrinos de Fátima.
Maria Ramalho/DGPC/2016.