Nota Histórico-Artistica
No ano em que faleceu António José Arroyo (1856-1934), que para além da carreira técnica como engenheiro, foi autor de obras sobre literatura, música, artes plásticas e sobretudo inspector e estudioso do ensino técnico e da arte aplicada, fundou-se a então Escola Industrial António Arroio, Arte Aplicada, sediada no edifício que havia sido construído para a Escola de Cerâmica António Augusto Gonçalves, criada em 1924.
Dirigida por Falcão Trigoso, a formação ministrada em cinco anos contemplava áreas profissionais de cerâmica, cantaria, cinzelagem, talha, desenho litográfico, lavores femininos e ainda habilitação às escolas de belas artes. Posteriormente, com a reforma do ensino técnico em 1948, passou a designar-se Escola de Artes Decorativas António Arroio.
A maior parte dos diplomados saíam dos cursos da secção preparatória às belas artes e de desenhador gravador litógrafo; os restantes saíam dos cursos de pintura, escultura e cerâmica decorativas, cinzelagem e mobiliário artístico.
Foi um espaço marcante no panorama artístico português onde leccionaram, ou receberam formação, artistas notáveis, alguns ligados à corrente surrealista ou ao movimento neo-realista, destacando-se, entre outros, os professores Abel Manta, Frederico Jorge, Cargaleiro e Quirino da Fonseca e como alunos, Mário Cesariny e Júlio Pomar.
Em 1970 as escola mudou-se para novas instalações, sendo o edifício devoluto ocupado pelo Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Lisboa. Posteriormente foi afecto ao antigo Liceu Camões, funcionando aí a Oficina de Artes da actual escola secundária.
Este imóvel terá sido construído em 1928, sendo o seu projecto provavelmente da autoria do arquitecto Manuel Joaquim Norte Júnior (1878-1962), obedecendo a um programa que terá sido pensado para servir a escola de cerâmica, com a qual se fundiu.
Nos anos 80 do século XX, altura em que sofreu obras de beneficiação, para além do edifício principal, existia ainda um anexo dos anos 40, então demolido, constituído por um conjunto de salas e áreas oficinais e um forno de cerâmica.
Apesar de então ter sofrido algumas alterações, ter-se-á mantido o desenho base de finais dos anos 20. Apresenta dois pisos, desenvolvendo-se a sua planta em "U", funcionando o pátio central como zona de distribuição entre os corpos laterais, acedendo-se às salas do piso superior através de túneis e escadas, sendo a circulação efectuada através das salas.
Neste imóvel destaca-se a sua frontaria pelo seu cuidadoso tratamento arquitectónico. O ritmo é marcado pelas formas e pelos tons equilibrados, encontrando-se no seu lado esquerdo um frontão quebrado, neo-românico, e um importante conjunto cerâmico, com um "certo sabor expressionista que domina a fachada", já formalmente muito geometrizada, "com elementos triangulares e piramidais ligados ao déco" (FERNANDES, 1978: 57).
Os conjuntos cerâmicos, em esmalte verde, da autoria de Costa Mota, são formados por elementos geométricos, florais e aquáticos, de grande apuro técnico e de perfeito enquadramento, e terão sido executados na fábrica Viúva Lamego. Encontram-se dispostos na parte central do piso térreo, entre as janelas e a entrada, de arco de volta perfeita, onde se encontra um interessante portão em ferro forjado, com uma composição geométrica elaborada a partir de rectângulos. Dominam também a parte superior do edifício, sendo delimitados pelos vãos exteriores rectangulares, e por uma cimalha saliente, sustentada por mísulas e coroada por elementos piramidais. No lado direito desta, sobre a entrada principal, encontra-se o busto cerâmico de António Augusto Gonçalves integrado num medalhão de evocação historicista.
A fachada do edifício assume relevo por ser considerada precursora da tendência art déco no país, marcando uma época, como elemento de transição entre o eclectismo historicista e o movimento das "artes decorativas" (FERNANDES, 1978: 57).
João Marques, IPPAR/DRL