Nota Histórico-Artistica
Imóvel
Situado frente ao mar, junto à Praia do Tamariz, o edifício das cocheiras da casa de veraneio que o proprietário agrícola António dos Santos Jorge mandou construir do lado sul da antiga Estrada Real é uma das mais singulares edificações dos Estoris. Implementando-se num lote triangular, contíguo à linha do caminho-de-ferro, a estrutura imponente marca a paisagem, com o grande pórtico que remata o conjunto de forma cénica.
O edifício da "garage e cocheira", mandado edificar em 1914, divide-se em dois pisos, o térreo originalmente destinado à cocheira e espaço de cavalariça, com garagem e oficina particular, e o segundo reservado às habitações dos criados da casa, com duas salas comuns, oito quartos, quatro quartos de banho, duas cozinhas e uma copa. O conjunto é rematado por um grande terraço, onde se encontra o pórtico. Atualmente, o imóvel encontra-se muito deteriorado, e da divisão interior pouco subsiste. Ainda assim, mantém-se a imponência do programa decorativo exterior exuberante e profusamente ornamental, de inspiração Beaux Arts.
Com a entrada principal virada a oeste, o edifício apresenta três fachadas com abertura de grandes vãos que permitiam a entrada de carruagens e carros. A fachada lateral Norte é dividida por três arcos de entrada atualmente entaipados, que originalmente tinham portas de ferro e vidro. A separação entre eles é feita por pilares que formam uma arcada fechada, com aparelho de pedra rusticado na parte inferior, substituídos no capitel por grandes motivos decorativos com moldura redonda e grinaldas. A entrada central, maior, é dividida por duas pilastras com capitéis compósitos, e as duas laterais possuem arco rematado por aduelas. A fachada lateral Sul, que se adapta ao declive da Rua Olivença, apresenta um grande arco, originalmente com porta de ferro e vidro, dois tramos com três janelas de peito e um vão cego, projetado como porta. Também neste alçado os tramos são marcados por pilares substituídos no capitel por motivos com moldura redonda e grinaldas. A entrada principal é feita através de um grande arco redondo com porta de ferro forjado e vidro, decorada com motivos florais e encimada por frontão redondo abundantemente decorado por grinaldas e motivos vegetalistas, ladeado por duas mísulas com dois mascarões, centrado por óculo em semi-círculo tapado por vitrais. Um friso com balaustrada separa o edifício do terraço, sendo neste que se encontra o grande pórtico, ladeado por dois pares de colunas jónicas, cujo remate central é feito por uma imponente águia esculpida, integrada num frontão triangular. Originalmente, o terraço albergava pérgulas de ferro.
História
Edificadas na época em que os palacetes, moradias e chalets de veraneio das famílias aristocráticas e burguesas iam ocupando a costa Cascais-Estoril, as cocheiras são a "componente mais significativa" da casa de Santos Jorge, constituindo-se como "símbolo maior da arquitectura ecléctica" de toda a região da Linha (SILVA: 1988, p. 124). Projetadas por Manuel Joaquim Norte Júnior em 1914, fariam parte de um projeto maior que não chegou a ser edificado.
O edifício das cocheiras é uma obra única, que inequivocamente reconhece a mão do arquiteto, então no auge da carreira, reproduzindo elementos decorativos de gosto eclético e elegante, identificativos da sua obra, como a porta da fachada Norte repartida por duas grandes pilastras compósitas lembrando a solução da fachada d' A Voz do Operário, o frontão curvo, o rusticado do piso inferior, os florões e grinaldas ou os portões de ferro forjado. Destaque-se ainda a exímia perícia de Norte Júnior enquanto projetista, desenhando um edifício não-habitacional que exigiu um cuidado planeamento funcional dos espaços, sobretudo devido à implantação do lote.
Catarina Oliveira
DGPC, 2015
Diploma de Classificação
Declaração de Rectificação n.º 10-E/96, DR, I Série-B, n.º 127, de 31-05-1996 (rectificou a designação) (ver Declaração)
Decreto n.º 2/96, DR, I Série-B, n.º 56, de 6-03-1996 (ver Decreto)
Número do Processo
Não disponível