Nota Histórico-Artistica
Implantado na serra de Sintra, entre cerrados arvoredos e elementos rochosos, o convento de Santa Cruz dos Capuchos, ou Convento dos Capuchos, como é mais conhecido, foi instituído em 1560 por D. Álvaro de Castro, que assim cumpriu o voto de seu pai, D. João de Castro, Vice-Rei da Índia. Os primeiros franciscanos capuchos que aqui habitaram, em número de oito, vieram do convento da Arrábida, trazendo consigo toda uma espiritualidade que privilegiava a pobreza e a ascese, e que se traduziu na arquitectura totalmente depurada que, desde então, acolheu os diversos religiosos que viveram nestas celas de dimensões reduzidas, escavadas na rocha.
Acompanhando o declive do terreno, a planta do complexo conventual é, naturalmente, irregular e antecedida por um terreiro com uma fonte, que marca a passagem de um mundo de luz natural para um outro, as celas (e demais dependências, algumas das quais forradas a cortiça, e articuladas entre si através de escadas e corredores talhados na rocha) e a igreja, onde impera a penumbra (RIBEIRO (Coord.), 1998, p. 215). A vida contemplativa abraçada pelos frades capuchos assim o impunha. A igreja, integrada no conjunto, é de uma só nave, destacando-se o retábulo-mor de mármore e o altar de embutidos, por constituírem os elementos de maior vanguarda (devem ter sido executados entre o final de Seiscentos e o início da centúria seguinte), fugindo ao rigorismo e pobreza observada nos restantes espaços. É também aqui que se encontra a lápide evocativa da fundação do convento, que perpetua a memória de D. João de Castro.
A imagem e o simbolismo da cruz, que recorda a paixão de Cristo e a invocação do próprio convento, são uma presença constante, que tem início na grande cruz de pedra à entrada e se propaga por todo o interior, assumindo um significado especial na capela dedicada ao Senhor dos Passos. Esta, é revestida por azulejos setecentistas, de cerca de 1740, representando a Flagelação, a Coroação de Espinhos, símbolos da Paixão na abóbada e, sobre a porta, Cristo Crucificado, a completar o programa (SIMÕES, 1979, p. 320). A capela do Senhor Crucificado insere-se na mesma iconografia que reflecte a espiritualidade franciscana, apresentando pinturas murais atribuídas a André Reinoso (SERRÃO, 1989, p. 58).
A par da iconografia da cruz, todo o complexo foi concebido como um caminho a percorrer para atingir a salvação, um percurso ascendente que culmina na sala do retiro, logo após a sala da penitência. Uma lógica arquitectónica que testemunha as principais preocupações dos seus habitantes - a penitência e a vida contemplativa e espiritual. Assim, à primeira campanha fundacional, seguiu-se apenas uma outra já setecentista, que veio trazer alguma modernidade ao complexo conventual, mas, sobretudo, acentuar o simbolismo da cruz.
O convento dos Capuchos nunca deixou de impressionar todos quantos aí se deslocaram ao longo dos séculos, desde viajantes a monarcas, que expressaram a sua admiração pela vida austera que os religiosos levavam. Beneficiado por vários reis, o convento foi habitado até 1834, quando a extinção das Ordens Religiosas obrigou ao seu encerramento. Adquirido pelo Estado já no século XX, encontrou-se encerrado entre 1998 e 2000 devido ao avançado estado de ruína, abrindo de novo as suas portas ao público em 2001.
(Rosário Carvalho)