Nota Histórico-Artistica
Em pleno centro histórico da vila de Alvor, em local privilegiado em relação ao porto e ao primitivo castelo da localidade, a igreja do Divino Salvador é o monumento mais emblemático da vila e, provavelmente, a obra manuelina algarvia de maior divulgação e impacto nacional.
A construção do actual edifício, que veio substituir um outro, de origem medieval, data dos anos 20 do século XVI e nela trabalhou o mestre manuelino do Alvor, como lhe chamou Manuel Castelo Ramos, escultor responsável, também, pelo portal lateral da igreja da Misericórdia de Silves e pelo portal da Igreja Matriz de Estômbar (RAMOS, 1990).
De facto, o portal axial é o principal elemento estilístico do conjunto. De volta perfeita, e de seis arquivoltas profusamente decoradas, nele foram gravados algumas das mais belas esculturas manuelinas, como pares de músicos, dragões e aves ladeando a Árvore da Vida, cenas de lutas, etc., elementos iconográficos próprios de um vocabulário tardo-medieval, em transição para o Renascimento e plano de influências orientalizantes, saídos da mão de um dos nossos melhores artistas deste período.
De um ponto de vista arquitectónico, a obra do Divino Salvador de Alvor não atingiu o estatuto excepcional do seu portal principal, mas revela-se uma empresa bastante homogénea. Fiel a um esquema de igreja praticamente salão, com três naves quase à mesma altura e quatro tramos, a obra insere-se no mesmo processo de unificação espacial que caracteriza os inícios do século XVI. Infelizmente, as muitas transformações por que o templo passou, determinaram a adulteração da capela-mor. Do período manuelino mantém-se, ainda, o arco triunfal, cuja decoração é muito semelhante à do portal lateral Sul, este praticamente idêntico à entrada lateral da Misericórdia de Silves, de arco polilobado e de arquivolta única, decorado com máscaras humanas inseridas num mundo vegetalista.
No século XVIII, deram-se as principais obras, muito provavelmente na sequência de danos causados pelo terramoto de 1755. Data desta altura a torre sineira e alguns altares barrocos, colocados ao longo da nave. Nas décadas seguintes, o templo não cessou de ser artisticamente enriquecido, como o prova o retábulo-mor, obra já rococó, que integra, ao centro, uma ampla tela dedicada ao Salvador do Mundo (LAMEIRA, 2000, p.288).
No século XX, a excelência do portal principal desta igreja não passou despercebida à maioria dos investigadores que se dedicaram, e dedicam, à arte do século XVI. Classificado como Imóvel de Interesse Público em 1948, as principais obras de restauro tiveram lugar na década de 70, altura em que se demoliram alguns elementos barrocos, ou já rococós, como o coro-alto e se restauraram os retábulos. Na actualidade, a igreja, e o seu natural impacto na paisagem, encontram-se relativamente ameaçados pela expansão urbanística que caracteriza a orla costeira algarvia. A sua relação com o castelo, alvo já de algumas intervenções arqueológicas, mas ainda não de uma campanha peolongada e verdadeiramente sistemática, encontra-se prejudicada por algumas habitações e a fachada Norte, onde se adossa um morabito de provável origem islâmica, está parcialmente ocultada por construções privadas posteriores. Aguarda-se, assim, que este templo seja alvo de uma rigorosa investigação, que vá para além do actualmente apreensível, e que confirme, ou aprofunde, a qualidade e relevância dos elementos já estudados.
PAF