Nota Histórico-Artistica
Situada a Norte do Campo da Feira, a igreja de Nossa Senhora do Terço que, na sua origem, integrava o convento de religiosas beneditinas, foi uma das edificações que, no início do século XVIII, contribuíu para a estruturação da malha urbana nesta zona da cidade, então em expansão (ALMEIDA, 1990, p. 28).
A fundação do convento encontra-se relacionada com a demolição de um outro, em Monção, ordenada por D. Pedro, com o objectivo de reedificar e fortalecer as muralhas defensivas desta localidade. As religiosas de Monção deveriam, então, ser transferidas para o convento a construir em Barcelos, onde a primeira pedra no novo edifício foi lançada em 1707, já no reinado de D. João V, e com o aval do Arcebispo de Braga, D. Rodrigo de Moura Teles. Os trabalhos prosseguiram com rapidez, e em 1713, quando o cortejo conduziu as mais de cem religiosas às suas novas dependências, estas estavam quase totalmente concluídas.
A Extinção das Ordens Religiosas, em 1834, não trouxe consigo o imediato desaparecimento do convento, por esta ser uma casa feminina, e só poder ser extinta após o falecimento da última freira, o que aconteceu em 1842. As dependências conventuais foram vendidas em hasta pública e, posteriormente, demolidas. Somente a igreja subsistiu até aos nossos dias, tendo acolhido, a partir de 1846, a confraria do Terço, até então sediada na capela do Espírito Santo, mas que entretanto havia sido demolida.
De planta longitudinal, com nave única e capela-mor, o templo, que passou a ter como principal invocação Nossa Senhora do Terço, conservou, no seu interior, todo o equipamento decorativo original, organizado segundo um programa iconográfico de exaltação da Ordem e do seu fundador, São Bento, que exemplifica, também, as opções artísticas do barroco nacional, no que se convencionou denominar por "obra de arte total".
O exterior, de linhas depuradas, encontra no portal principal (lateral, como convém nas igrejas femininas), o seu elemento de maior interesse, contrastando vivamente com o espaço interno, profusamente decorado por talha dourada, azulejos e pinturas. As paredes da nave encontram-se totalmente revestidas por azulejos, azuis e brancos, numa composição que articula rodapés de medalhões com emblemas, e painéis de grandes dimensões representando cenas da vida de São Bento. A sua execução, datada de 1713 (pintada nos azulejos) tem vindo a ser atribuída a António de Oliveira Bernades, a quem são igualmente imputadas, com algumas reservas, as telas da nave, e as pinturas do tecto, em caixotões, com temática também alusiva à Ordem.
Na capela-mor, os azulejos, que ilustram a fundação do convento e o cortejo das freiras (complementados pelas inscrições que assinalam ambos os acontecimentos), estão assinados por P.M.P., a sigla do pintor lisboeta cujo nome permanece desconhecido. O retábulo, em talha dourada joanina, ocupa a totalidade da capela-mor, e, tal como os colaterais, na nave, exibe um conjunto de imaginária setecentista ou mesmo anterior. Por fim, o púlpito, muito possivelmente, contemporâneo da campanha azulejar, é considerado um dos exemplares mais significativos do Norte do país, que Roberth Smith atribuiu ao entalhador Ambrósio Coelho (1968, p. 154; para outras hipóteses de atribuição cf. FERREIRA, 1982, p. 10).
(Rosário Carvalho)