Nota Histórico-Artistica
Em meados do século XII estabeleceu-se, junto ao rio Távora, uma comunidade cisterciense masculina que aí fundou um mosteiro e edificou, num local "entalado entre um penedia e o rio" (REAL, 1998, p. 47), uma pequena capela românica dedicada a São Pedro. Embora haja alguma controvérsia em torno da fundação deste mosteiro, devido à dúvida quanto à regra originalmente adaptada, M. Real indica a capela de São Pedro das Águias como integrada no grupo das primeiras fundações cistercienses em território nacional, ligada desde o seu estabelecimento ao grande mosteiro de São João de Tarouca (Idem, ibidem, pp. 47-49).
A escolha de um local ermo para a edificação do pequeno mosteiro correspondia sem dúvida ao "desígnio de isolamento da ordem", mas na realidade, alguns anos mais tarde, a comunidade cisterciense de São Pedro das Águias acabaria por se transferir das margens do Távora para um "local mais altaneiro" (Idem, ibidem, p. 56), em busca de melhores condições de subsistência. O mosteiro "novo" de São Pedro das Águias foi assim edificado sobre o vale do rio, constituindo-se como sede de um pequeno couto reconhecido em 1258 por D. Afonso III (RODRIGUEZ, 1999, p. 146).
No mosteiro novo subsistem poucos vestígios arquitectónicos do edifício românico da fundação, uma vez que o conjunto foi totalmente reedificado na época moderno. Dos finais do século XVI, ou primeiros anos da centúria seguinte, data o claustro maneirista de linhas eruditas e a estrutura do templo. A fachada da igreja de São Pedro é uma obra já barroca, bem como o edifício da quinta.
Embora tenha sido renovado com certa regularidade, o Mosteiro de São Pedro das Águias era uma das comunidades cistercienses mais pequenas e rurais de Portugal na Idade Moderna, contando com apenas 7 monges em 1593 (PEREIRA, 1998, p. 237).
Ligada desde o seu estabelecimento aos Távoras, senhores locais a quem as lendas atribuem a fundação do primitivo cenóbio, a igreja de São Pedro das Águias tornou-se panteão da família depois de Filipe II de Portugal ter criado, em 1611, o condado de São João da Pesqueira a favor de Luís Álvares de Távora. O espaço está actualmente descaracterizado, uma vez que em 1996 a quinta do mosteiro foi adquirida pelo actual proprietário, sendo então transformada numa exploração agrícola que produz vinho do Porto e vinho de mesa. Desta forma, alguns dos espaços conventuais foram adaptados às novas funções agrícolas, como a igreja e a sacristia, ou as caves do mosteiro, que se transformaram em espaços de adega e armazenamento de vinhos, e a parte superior do edifício monacal foi adaptada a residência particular.
No entanto, a estrutura que subsiste, embora adulterada nas suas funções originais, encontra-se muito bem preservada, pelo que o templo mantém intacta a traça e planimetria, de nave única coberta por abóbada de berços, com fenestrações rasgadas no registo superior, à qual foram adossados os espaços da capela-mor e da sacristia.
A fachada deste apresenta-se rasgado por portal de moldura recta com frontão semi-circular, interrompido pela disposição do nicho com a imagem de São Pedro, ladeado por duas pequenas janelas rectangulares e encimada por óculo. Do lado direito do frontispício foi edificada a torre sineira, um maciço conjunto de secção quadrada.
Destaca-se ainda o espaço do claustro edificado no século XVII, de linhas maneiristas de grande erudição, com arcada no piso térreo apoiada em pilares e galeria fechada com fenestrações no registo superior. Ao centro foi edificado um fontanário rodeado por jardim de buxo.
Catarina Oliveira
IPPAR/2006
Diploma de Classificação
Portaria n.º 443/2006, DR, II Série, n.º 49, de 9-03-2006 (ver Portaria)
Número do Processo
Não disponível