Nota Histórico-Artistica
Constitui, juntamente com a igreja de Nossa Senhora da Conceição e com a igreja de Nossa Senhora dos Remédios, um dos interiores barrocos mais interessantes de Peniche, que se inscreve nos modelos nacionais de igrejas revestidas por painéis de azulejo, articulados com a talha dourada e com a pintura de tectos, definindo uma obra de arte total, onde todos os elementos convergem para um discurso iconográfico comum. No caso da igreja de Nossa Senhora da Ajuda, exalta-se a Virgem e as invocações da três irmandades aí sediadas - Nossa Senhora da Ajuda, São Pero Gonçalves Telmo e Santíssimo Sacramento.
Não se conhece, ao certo, a data de edificação da igreja, mas esta existia já em 1505, ano em que se instituiu a irmandade de São Pero Gonçalves Telmo (CALADO,1962,p.269). Na porta principal, bipartida pelas bases das pilastras, encontra-se a data de 1569, que corresponde a uma intervenção posterior à primitiva campanha de obras. Na centúria de Seiscentos assistiu-se a uma remodelação do interior do templo, então revestido por azulejos de padrão, de que hoje restam os da capela-mor (os da nave foram vendidos para financiar as obras setecentistas). Nesta campanha integra-se, ainda, o tecto de caixotões da capela-mor, atribuído a Baltazar Gomes Figueira, e o retábulo-mor, de cerca de 1680-90, dourado entre 1706-1707 (GONÇALVES,1982,p.9).
O templo que hoje conhecemos é, no entanto, o resultado da grande intervenção que começou a ser delineada em 1716, tendo sido aprovada a 2 de Fevereiro do ano seguinte, aquando da eleição dos novos mesários. Este plano, bastante ambicioso, foi custeado pelas irmandades e pelas esmolas dos fiéis, tendo incidido, sobretudo, no interior, cujo aparato cenográfico contrasta vivamente com o exterior da igreja, numa arquitectura chã, de grande depuração.
A nave conheceu, nesta época, um aumento significativo, por forma a comportar o coro alto, tornando-a muito comprida e, de alguma forma, desproporcionada. As estruturas estariam concluídas até 1719, prosseguindo os trabalhos, sob a orientação do mestre de pedraria João Mateus, com a intervenção nas capelas laterais, que deveriam ficar iguais (IDEM,pp.12-13). Ainda nesse ano de 1719, foi pintado o tecto da nave pelo mesmo autor que executou o da igreja de Nossa Senhora da Conceição, e que, pela proximidade com outros trabalhos na região, tem vindo a ser identificado como o pintor Pedro Peixoto (IDEM,p.40). Os grotescos, com as quatro virtudes aos cantos, enquadram o tema central da Morte da Virgem, aludindo à invocação de Nossa Senhora da Ajuda, enquanto que a veneração da Eucaristia, na parede de remate da nave, evoca a irmandade do Santíssimo Sacramento (este último já de 1727).
As despesas com a obra do azulejo remontam aos anos de 1723-24, referindo uma visitação que, neste último ano, já a igreja se encontrava muito bem azulejada (IDEM,p.13). Os painéis, que revestem a totalidade dos panos murários do templo, ilustram episódios da vida da Virgem, com representações do Cântico dos Cânticos no sub-coro, e rodapés com cenas de caça e pastorícia. De acordo com Flávio Gonçalves, que se afasta da cronologia e propostas de atribuição de Santos Simões (1979,p.171), este conjunto foi executado a duas mãos, devendo-se os rodapés, mais eruditos e delicados, e os painéis do subcoro, a Teotónio dos Santos.
A pintura do sub-coro e arco triunfal data de 1727, enquanto a talha do púlpito e arco triunfal remonta a 1726, e as dos restantes altares a 1729. Os trabalhos prosseguiram, ainda, com o baptistério, em 1734-35, e com o revestimento azulejar da sacristia, entre 1736-37.
A semelhança entre este interior e o da igreja de Nossa Senhora da Conceição, tendo pelo menos um artista trabalhado em ambas as obras, é bem revelador do contacto e da mútua influência exercida. Embora não haja certezas quanto à igreja mas antiga, cremos que ambas deverão ter sido contemporâneas, podendo ser apenas ligeiramente anterior a da Conceição (GONÇALVES,1983,p.246).
(RC)