Nota Histórico-Artistica
Outrora local de recolhimento e meditação dos monges de Santa Cruz, o Jardim da Sereia, como é conhecido em Coimbra constitui, actualmente, um dos grandes espaços verdes da cidade, situado junto à Praça da República. A sua designação deve-se à identificação da escultura existente na Fonte da Nogueira, que representa um Tritão a abrir a boca a um golfinho de onde a água jorra para uma concha, com a figura de uma Sereia.
Embora fizesse parte da cerca dos frades crúzios, a construção e arranjo do Parque remonta aos anos que vão de 1723 a 1752, quando D. Gaspar da Encarnação presidia à comunidade (BORGES, 1987, p. 117). Do conjunto do Parque destacam-se, para além das diferentes espécies de árvores (como o loureiro da Índia, oriundo de Goa, ou os carvalhos de grande porte), alguns espaços que estruturam o Jardim - o recinto do Jogo da Péla (um desporto que poderá ser considerado como uma espécie de antepassado do ténis actual, que se jogava em França pelo menos desde o século XIII, e cujo recinto podia ser interior ou exterior (a título de exemplo refira-se que alguns autores aludem à aclamação de D. João II em Sintra na Sala do Jogo da Péla, em 31 de Agosto de 1481); a cascata situada ao fundo deste recinto; a escadaria que estabelece a ligação com a Fonte da Nogueira; ou ainda o lago circular, singular pelas suas dimensões.
A configuração claramente barroca, de cariz cenográfico, presente na grande maioria dos espaços e dos elementos estruturantes do Jardim, denuncia exactamente a época que lhe deu origem. É o caso dos muros que definem o recinto do Jogo da Péla, rematados por pilaretes com urnas; a cascata que se assemelha, nas palavras de Nelson Correia Borges, a um gigantesco trono de retábulo albergando Nossa Senhora da Conceição; ou a escadaria de sabor cenográfico que liga a cascata à Fonte da Nogueira, cujos patamares exibem tanques, repuxos e bancos revestidos por azulejos.
Por outro lado, estas intervenções, que nalguns casos pretendem integrar-se no espaço natural ao procurarem revestimentos de concreções calcárias provenientes das grutas ao redor de Coimbra - como é o caso do pórtico de três arcos que permite o acesso ao Jardim -, exibem referentes cristãos, patentes nas diversas representações distribuídas ao longo do Parque, e cuja justificação se deverá procurar na função original deste espaço - local de meditação de religiosos. Assim, cada arco do pórtico de entrada é encimado por uma escultura, que representam no seu conjunto as três virtudes teologais, ou seja, as virtudes que a Igreja considera indispensáveis à salvação do Homem - Fé, Esperança e Caridade. Ladeiam o referido pórtico, dois torreões de planta quadrada com cobertura piramidal, que antigamente seriam mais elevados pois acedia-se ao Parque através de uma escadaria de treze degraus, entretanto desaparecida (BORGES, 1987, p. 117). Ambos apresentam pinturas a fresco: decorativas no exterior e representativas da vida de Santo Agostinho, São Teotónio e D. Afonso Henriques no interior. Já dentro do Parque, observamos ao fundo e depois do recinto da Péla, a imagem de Nossa Senhora da Conceição integrada na cascata, e num plano mais afastado, dois medalhões de azulejos e esculturas representativas de Sara e Agar no Deserto e o profeta Eliseu lançando sal nas águas de Jericó (BORGES, 1987, p. 118). Por fim, e na parede da Fonte da Nogueira surge ainda um nicho com a imagem de Nossa Senhora, ladeado por duas pilastras de ordem dórica, rematado por entablamento e frontão curvo.
(Rosário Carvalho)