Nota Histórico-Artistica
Imóvel
Situada na rua de São Vicente, um importante eixo da malha urbana de Braga, a Igreja de São Vicente foi edificada entre os anos finais do século XVII e as primeiras décadas da centúria seguinte, substituindo o templo medieval primitivo. O programa decorativo interior foi executado em fases distintas entre meados de Setecentos e o início do século XIX.
A igreja desenvolve-se numa planta retangular, composta por seis volumes distintos, o primeiro correspondente à nave, seguido da capela-mor. A estes juntam-se três corpos, dispostos em L (um tardoz e dois laterais), correspondentes à sacristia e à Casa da Irmandade de S. Vicente. No topo da edificação, no eixo do corpo central, ergue-se a torre sineira.
A fachada revela a transição do maneirismo para o barroco, nomeadamente na profusa decoração que envolve as molduras dos vãos e no remate superior recortado, alternando elementos de inspiração flamenguista com exuberantes florões de gosto barroco que lembram as composições de talha da época. Ao centro abre-se um nicho que alberga a imagem de São Vicente, numa composição ladeada por dois anjos. Sobre o portal, e ao centro do frontão interrompido, encontra-se a representação escultórica do Baptismo de Cristo. A localização da torre sineira atrás da capela-mor pretende libertar a fachada, numa solução comum a outros templos coevos.
O interior, de nave única e capela-mor, destaca-se pelo exuberante programa decorativo, plenamente barroco, com teto de caixotões dourados e policromados, altares de talha dourada e apontamentos de talha no ornamento dos elementos estruturais, nomeadamente as sanefas e as grandes das janelas, o revestimento do arco cruzeiro, o nártex e o coro-alto. A este junta-se o duplo conjunto de azulejos que reveste as paredes de ambos os espaços: os do primeiro espaço são já do século XIX, muito possivelmente oriundos de uma fábrica do Porto; por sua vez, os painéis da capela-mor, que representam a história e o martírio de São Vicente, orago do templo, são de fabrico lisboeta, datando-se de meados do século XVIII (c. 1730-40) (Simões: 1979, p. 100).
História
A Igreja de São Vicente de Braga será a substituta de um templo visigótico existente no local desde, pelo menos, o século VII, do qual subsiste uma lápide funerária do ano 618 d.C., guardada na sacristia.
Uma outra lápide, na fachada principal, faz referência a três campanhas de obras neste local; em 656 foi edificada a primeira igreja, remodelada em 1565 e novamente reformada em 1691.
O atual templo resulta desta obra barroca, na qual intervieram alguns dos mais prestigiados arquitetos da cidade de Braga, como Manuel Fernandes da Silva, André Soares e Carlos Amarante, três nomes da maior importância no quadro do desenvolvimento da nova Bracara Augusta, sob a égide dos arcebispos D. Rodrigo de Moura Teles e D. Gaspar de Bragança.
A própria igreja, situada então numa zona afastada do centro histórico, contribuiu para o desenvolvimento da área em redor, funcionando como pólo urbanístico em torno do qual se estruturou parte da cidade (Fernandes: 1989, p. 97).
A obra que hoje se ergue começou em 1686, quando a Irmandade de S. Vicente decidiu reconstruir a igreja, seguindo o modelo da Igreja de N. S.ª a Branca (Rocha: 1996, p. 142). Todavia, este plano não se concretizou, e os trabalhos tiveram início apenas em Maio de 1689, com projeto de Domingos Moreira (Oliveira: 1993, p. 47; Rocha: 1996, p. 143).
A obra arrastou-se durante anos, e em 1717 não estava ainda concluída a fachada (Ibidem). Foi então contratado Manuel Fernandes da Silva, que terá realizado o remate superior da frontaria.
A obra de André Soares está documentada, havendo notícia de que traçou as sanefas e caixilhos das janelas da capela-mor, em 1758, as grades do coro e alguns pormenores da caixa do órgão, esta última com intervenção de Carlos Amarante (Smith: 1973, p. 44).
Catarina Oliveira
DGPC, 2018