Nota Histórico-Artistica
Apesar de não ter sido concluída conforme o projecto original, a denominada Casa do Paço não deixa de se impor na paisagem urbana da Figueira da Foz, dominando parte da Avenida Marginal. A sua edificação deve-se à iniciativa do Bispo-Conde de Coimbra, D. João de Mello, que pretendia dispor de uma habitação para descanso, e pode balizar-se, aproximadamente, entre 1690 e 1704, ano em que o prelado faleceu, deixando o edifício inacabado.
Desenvolve-se através de uma planta em U, com pátio interno e fachada principal paralela ao rio, e é rematada, numa das extremidades, pela imponente torre, coberta por cúpula com lanternim falso. De acordo com o projecto, uma outra torre deveria ter sido erguida do lado oposto, mas a morte de D. João de Mello impediu a concretização integral do que fora planeado. O alçado é ritmado pela abertura simétrica de portas, no piso térreo, e janelas de sacada, no andar nobre, definindo um gosto barroco, mas onde impera a sobriedade e a depuração (BORGES, 1991, p. 48). As extremidades são marcadas por pilastras e as janelas destas secções são encimadas por um frontão triangular.
Não se conhece o nome do arquitecto, mas os investigadores têm concordado em aproximar esta arquitectura com outros edifícios patrocinados pelo Bispo, nomeadamente o do Convento de Santa Clara-a-Nova, em Coimbra, concebido por frei João Turriano (engenheiro-mor do Reino e lente de Matemática na Universidade de Coimbra). Os paralelos verificam-se ao nível da fachada Norte do edifício conventual, muito semelhante à da Casa do Paço que acabámos de descrever, situação que se repete ao nível da concepção rectilínea de ambos os imóveis, dos torreões com cúpulas e pináculos e das próprias proporções (BORGES, 1991, p. 49).
No interior, mantém-se a distribuição espacial que, no restauro do século XIX, foi copiada pela da Casa da Baía, em Maiorca, que remonta a 1637 (BORGES, 1991, p. 49). Contudo, e apesar da magestosa fachada e imponência de todo o edifício, são os azulejos holandeses do seu interior que ganham um especial significado, pois constituem o maior conjunto do mundo, executado na primeira década do século XVIII (MECO, 1986, p. 147). Não se sabe por que razão se encontra aqui um tão grande número destes azulejos, parte em tons de azul e outros em manganés. É possível que provenham de um navio holandês naufragado ao largo da Figueira da Foz no início do século XVIII, mas podem ser fruto de uma encomenda específica dos descendentes de D. João de Mello. De facto, é conhecido o gosto e a encomenda de exemplares holandeses para decoração da sua casa em Lisboa de D. Pedro de José de Mello (BORGES, 1991, p. 49; MECO, 1986, p. 148). Na Casa do Paço encontramos três géneros de azulejos, uns desenhando paisagens campestres, outros cavaleiros em posições diferenciadas, e por fim representações de episódios bíblicos, estes últimos aplicados na divisão que se pensa corresponder à antiga capela. Alternam cercaduras azuis com interiores a manganés, e vice versa, denunciando uma sensibilidade decorativa (onde o pormenor do desenho se perde para favorecer o efeito de conjunto) apenas acessível aos azulejadores portugueses, com certeza, responsáveis pela sua aplicação.
Por outro lado, a presença de letras junto de alguns cavaleiros tem levantado problemas de identificação, que Santos Simões interpretou como referências a Guilherme III de Inglaterra, Maria, mãe de Guilherme e rainha de Inglaterra, Carlos II de Inglaterra e Frederico I que ajudou Guilherme III.
Por todas estas razões, a antiga residência do Bispo de Coimbra merece um lugar de destaque na história da Figueira da Foz, mantendo, nos nossos dias, a sua imponente presença junto à marginal, conservando no seu interior este magnífico conjunto de azulejos, mas adaptando-se à actualidade e abrindo as portas do piso térreo à actividade comercial.
(Rosário Carvalho)