Nota Histórico-Artistica
O antigo Palácio da Cerca foi adquirido, em 1988, pela Câmara Municipal de Almada, e objecto de uma ampla remodelação entre os aos de 1991 e 1993, transformando-se na Casa da Cerca - Centro de Arte Contemporânea; uma instituição que, desde então, tem sido responsável pela organização de múltiplas exposições de artes plásticas e de uma série de eventos variados. Dispõe, para tal, de um Centro de Documentação e Informação, da Galeria do Pátio, do Parque de Escultura e do Jardim Botânico - O Chão das Artes -, beneficiando, ainda, de uma importante colecção de desenhos de artistas portugueses contemporâneos.
A origem deste espaço, que desfruta de uma situação geográfica privilegiada, dotada de uma das mais marcantes perspectivas da cidade de Lisboa e do rio Tejo é, no entanto, bem mais remota. Não se conhecem muitos dados relativos aos primórdios ou formação da propriedade. Das três possibilidades habitualmente mais difundidas - terrenos doados aos dominicanos, hospício da mesma Ordem, ou casa real -, ganha especial importância a primeira, por ser considerada a mais plausível e pelo facto destes religiosos possuírem várias outras propriedades nos arredores (ESTEVES, 1993, p. 21).
Até ao final do século XIX não subsistem muitas referências documentais à Quinta. Resta apenas o próprio edifício, cuja análise permite perceber uma série de campanhas de obras de datação aproximada. É certo que, no século XVII, existiam edifícios no local, pois estes são perceptíveis numa gravura de Almada (IDEM). Poderão, eventualmente, corresponder à área central do actual palácio, considerado o núcleo mais antigo, seiscentista, e onde as diferenças estruturais ao nível dos panos murários deixam adivinhar acrescentos e modificações. Naturalmente, esta construção ficou fortemente danificada em consequência do Terramoto de 1755, tendo sido reedificada em época posterior.
O edifício que hoje conhecemos obedece a uma estrutura comum à arquitectura civil portuguesa barroca, com planta em U e alçados bem ritmados através de uma sucessão de vãos, revelando, os da casa da Cerca, grande depuração (AZEVEDO, 1979). Os corpos laterais são unidos por um passadiço que fecha o pátio interno, e define uma fachada, com certeza, mais recente, pois denota um gosto romântico e revivalista, bem presente nas janelas neogóticas, com vitrais coloridos, que flanqueiam o portão. Por cima, o local de passagem é delimitado por grades de ferro.
Nos alçados do pátio, duas escadas laterais, convergentes, permitem o acesso ao andar nobre, prolongando-se, os balaustres das escadarias, na varanda, aberta no corpo central. Esta, sobrepõe-se à arcaria tripla do piso térreo. Se, de um modo geral, observamos uma continuidade e manutenção da sobriedade seiscentista, a composição do corpo central é muito cenográfica, tirando partido do desenvolvimento da escadaria e da abertura dos vãos, num efeito monumentalizante, tão ao gosto barroco.
A meio da ala direita insere-se a capela, com uma janela tapada pelo retábulo, o que sugere uma adaptação deste espaço ao culto católico ou, em alternativa, a manutenção do ritmo do alçado (ESTEVES, 1993, p. 23). O retábulo, de talha dourada, apresenta uma estrutura simplificada. As paredes são revestidas por painéis de azulejos, atribuídos ao Mestre P.M.P., e datáveis de 1717-25, representando, os da direita, a Anunciação e a Visitação, e os da esquerda a Adoração dos Pastores e dos Magos.
Num espaço com as características da Quinta da Cerca, os jardins revestiam-se, naturalmente, de importância acrescida, pois a sua localização permitia aproveitar as inúmeras possibilidades cenográficas oferecidas. É nesse contexto que se deverá entender a existência de um pavilhão, de janelas ogivais, com entrada própria (datada de 1781) que forma um corredor sobre a falésia. No restante espaço, profusamente arborizado, encontra-se um conjunto de mobiliário urbano setecentista que convidava à fruição destes locais.
(Rosário Carvalho)
Diploma de Classificação
Decreto n.º 2/96, DR, I Série-B, n.º 56, de 6-03-1996 (ver Decreto)
Edital N.º 7/93 de 1-03-1993 da CM de Almada
Despacho de concordância de 18-12-1990, do Secretário de Estado da Cultura
Despacho de concordância de 26-11-1990 do presidente do IPPC
Parecer de 8-11-1990 do Conselho Consultivo do IPPC a propor a classificação do Palácio da Cerca como IIP
Proposta de 3-08-1990 do IPPC para a classificação do Palácio da Cerca como VC e para a não classificação da zona envolvente
Em 12-03-1990 o CAA enviou nova documentação sobre om assunto
Nova proposta de 20-05-1986 do CAA
Em 10-04-1986 foi solicitado Ao CAA que reformulasse a proposta para o conjunto em vias de classificação
Em 9.04-1986 foi dado conhecimento à CM de Almada de que se encontrava em vias de classificação o Palácio da Cerca, e sua zona envolvente (Rua da Cerca, Pátio do Prior do Crato, Largo da Boca do Vento, Ruas Latino Coelho e Bolhão Pato e Largo das Vítimas de 26 de Agosto)
Proposta de 21-05-1984 do CAA para a classificação de um núcleo habitacional na Rua da Cerca