Nota Histórico-Artistica
A igreja de Vila Franca do Rosário destaca-se pela galilé cenográfica e teatral que antecede a fachada principal, a qual deveria fazer parte de um projecto arquitectónico mais vasto, mas não concluído. De facto, os volumes escalonados correspondentes à zona da nave e da capela-mor, são relativamente simples, apresentando apenas janelas com moldura de cantaria nos pisos superiores. É, pois, a galilé que lhe confere grande imponência e que torna este imóvel o eixo estruturador do adro murado em que se insere.
A construção do templo remonta à segunda metade do século XVI (c. 1567) e, a crer na lápide tumular existente no pavimento da nave, estaria, com certeza, concluída em 1580. A sua origem relaciona-se com uma lenda onde se conta a aparição de Nossa Senhora ao pastorinho Fernando, e em que a Virgem lhe ordena a edificação de uma ermida nesse mesmo local, garantindo que para tal não faltariam recursos. Apesar das reticências iniciais do pai do pastor, as obras da igreja iniciaram-se a expensas deste lavrador e, de acordo com as instruções de Nossa Senhora, a sua imagem, que deveria figurar no novo templo encontrava-se na ermida de Santa Comba, localizada nas proximidades (LUCENA, 1987, pp. 53-54). Esta lenda, que justifica a construção do templo, deverá, ainda, explicar a ligação a Santa Comba, cuja imagem se encontra na capela-mor, a par da representação da padroeira da igreja.
O primitivo edifício deverá ter sofrido grandes danos em consequência do terramoto de 1755, mas desconhece-se qual o alcance dos estragos, pelo que é difícil perceber se a galilé é uma obra posterior e inacabada, ou se é o resultado do grande sismo do século XVIII, não tendo chegado a igreja a ser reparada na totalidade. Em todo o caso, parece-nos que esta estrutura que antecede a fachada é, claramente, uma obra de linguagem barroca, de modelo erudito.
A iconografia referente à invocação do templo percorre todo o espaço, e no portal são visíveis motivos evocativos do rosário, tal como o azulejo que o ladeia representa a lenda a que já fizemos referência. A mesma temática encontra-se no interior, nomeadamente ao nível da pinturas dos tectos: a nave, em abóbada, alude ao episódio em que a Virgem entrega o rosário a São Domingos de Gusmão e, na abóbada da capela-mor, retoma-se a temática da aparição da Virgem ao pastor Fernando.
Ainda no interior, e para além do púlpito e do coro alto, este último sobre a porta principal, salientam-se os dois altares colaterais, de talha dourada e, na capela-mor, o retábulo é uma obra mais tardia, onde figuram as já referidas imagens de Nossa Senhora do Rosário e de Santa Comba.
Assim, podemos concluir que a singularidade da galilé deste templo, que radica em modelos arquitectónicos de grande erudição, é o seu elemento de maior significado, contrastando fortemente com o interior, de grande depuração decorativa, facto que evidencia uma descontinuidade estética e, muito possivelmente, a interrupção de uma campanha de obras ou a destruição de parte da igreja existente antes do Terramoto.
(Rosário Carvalho)