Nota Histórico-Artistica
A história da actual cidade de Portimão recua ao período de apogeu do Algarve no período de ligação ao reino português, quando a província foi o ponto de partida e de chegada para as aventuras quatrocentistas nacionais na costa africana. Simples lugar de pescadores, nos meados do século XV, menos de cem anos depois Portimão assumia-se já como a 4ª maior cidade do litoral algarvio, com 634 vizinhos.
O início da vila remonta a 1463, ano em que um grupo de moradores se dirigiu a D. Afonso V, no sentido de obter autorização real para fundar uma povoação, na margem direita da foz do rio Arade. Essa autorização foi concedida e a localidade passou a chamar-se São Lourenço da Barrosa, designação rapidamente substituída pela de Portimão. Pouco mais de dez anos depois, em 1475, os Procuradores de Silves às cortes de Évora queixaram-se da morosidade das obras de fortificação da vila, facto que, com certeza, esteve na origem da mudança de atitude por parte do rei relativamente ao desenvolvimento da localidade. Um ano depois, a 10 de Abril de 1476, D. Afonso V concedeu Vila Nova de Portimão a um seu vedor da Fazenda, D. Gonçalo Vaz de Castelo Branco, obrigando-o a fortificar a localidade com um castelo e muralhas.
Dada a sua localização privilegiada, à entrada do principal rio da província e em constante comunicação com o mar, o amuralhamento de todo o burgo assumia-se como a principal e prioritária tarefa. Neste contexto, a acção do primeiro donatário da vila foi importantíssima, a ele se devendo a erecção do sistema defensivo tardo-medieval.
Estamos muito mal informados acerca das muralhas da cidade, sucessivamente sacrificadas ao longo dos séculos, com particular incidência nas últimas décadas. Ao que tudo indica, a área amuralhada era superior a 6 hectares e definia um polígono irregular que acompanhava a margem do rio e englobava a parte mais alta da vila, onde se situava a Igreja Matriz, também ela mandada edificar por Gonçalo Castelo Branco. A quase totalidade das muralhas foi destruída, restando pequenos troços, entre prédios e muros de propriedades. O principal troço remanescente localiza-se entre a Porta da Serra e o Postigo dos Fumeiros, conservando ainda parte do caminho de ronda da fortaleza. Um segundo troço, entre o Postigo da Igreja e a Porta de São João, mantém-se ainda parcialmente, bastante danificado e suprimido por construções posteriores.
A fisionomia da malha urbana foi também sujeita a numerosas alterações. Em todo o caso, e ao que tudo indica, a vila organizava-se em função de três eixos viários fundamentais, que ligavam outras tantas portas: a da Ribeira; a da Serra e a de São João (MARQUES e VENTURA, 1993, p.12). Junto à primeira destas portas, na secção urbana mais próxima do rio, localiza-se o núcleo mais antigo, onde ainda se podem observar algumas portas com decoração manuelina, como o nº106 da Rua de Santa Isabel.
Em 1616 há notícia de uma reparação da cerca da cidade, mas desconhece-se a sua amplitude, sendo de admitir uma campanha pontual, na medida em que grande parte da cidade se desenvolvia já extra-muros. Alguns anos depois, Alexandre Massai, ao visitar a província, projectou um mais amplo sistema defensivo, de que se conserva o desenho no Museu da Cidade de Lisboa, mas que nunca foi chegou a realizar-se. No século XVII, os tempos eram já substancialmente diferentes e as preocupações defensivas da costa não passavam pela fortificação dos velhos burgos medievais. Para fazer frente a expedições estrangeiras, piratas e corsários, a opção recaía em modernas fortalezas costeiras, em situação de vigia permanente e de difícil acesso a partir do mar, de onde a artilharia terrestre pudesse ter alguma vantagem. Foi nesse sentido que se construiu o Forte de Santa Catarina e numerosas outras fortalezas um pouco por toda a costa meridional, de Castro Marim a Aljezur.
PAF