Nota Histórico-Artistica
A primeira referência documental que se conhece relativa à igreja de São Lourenço data de 1298. Nessa altura, ela era a sede de uma das duas freguesias do concelho de Ribatejo, uma unidade territorial que se estendia por grande parte da actual margem Sul oriental e que esteve na génese dos municípios de Barreiro, Moita, Montijo e Alcochete (VARGAS, 2005). Infelizmente, desse primeiro momento da história da vila e do seu templo paroquial nenhum elemento material foi, até ao momento, identificado. A actual igreja é uma construção da época moderna e não revela qualquer vestígio da edificação que os primeiros povoadores cristãos aqui edificaram pela segunda metade do século XIII.
A parcela mais antiga do conjunto é a capela que, na actualidade, está dedicada a São Sebastião mas que, na origem, foi um espaço funerário privado, mandado construir pelo nobre Fernão do Casal (que faleceu em Zamora), para seu lugar de sepultura e de seus pais. Esta fundação inscreve-se numa atitude relativamente vulgar pelos finais da Idade Média, protagonizada por figuras socialmente proeminentes, que instituíram muitas capelas funerárias anexas a templos pré-existentes, cujo principal e mais importante modelo, em Portugal, é o da capela do Fundador do Mosteiro de Alcobaça, mandada construir por D. João I para panteão dinástico (SILVA, 1989, p.47).
A ligação ao Mosteiro da Batalha testemunha-se, igualmente, na arquitectura da capela (PEREIRA, 1995, vol. II, p.30), onde é possível identificar a presença de homens formados no principal estaleiro quatrocentista nacional. A utilização de repertórios vegetalistas semelhantes nos capitéis de ambas as obras é um ponto de contacto inquestionável e ajuda a compreender o vastíssimo âmbito de influência que a Batalha teve ao longo de todo o século XV.
Mas as semelhanças mais imediatas encontram-se numa outra obra quatrocentista, também subsidiária do Mosteiro de Santa Maria da Vitória: a capela funerária de Maria Resende, na Igreja dos Mártires de Alcácer do Sal. Como realçou José Custódio Vieira da Silva, observamos, em ambas, um mesmo esquema planimétrico ("dois tramos rectangulares e um terceiro trapezoidal, a modo de capela-mor"), uma idêntica forma de abobadamento (com nervuras "de perfil rectangular com as arestas chanfradas, que arrancam de mísulas prismáticas") e até um semelhante recurso a "contrafortes escalonados" como sistema de refoço estrutural (SILVA, 1989, pp.47-50).
No interior, conservam-se três túmulos, um dos quais, dotado de jacente, pertence ao instituidor e ostenta a data de 1477 (CORREIA, 1924, p.95). Trata-se de um monumento sem assinaláveis rasgos artísticos, destinado a perpetuar a memória do tumulado como cavaleiro, que aqui é retratado vestindo armadura. A arca é lisa, ostentando apenas uma inscrição alusiva à figura sepultada, e o arcossólio (que pode não corresponder à localização original do moimento, aparentemente destinado para figurar ao centro da capela, segundo ALVES, 1992) é rematado, a eixo, por um brasão com as armas de Fernão do Casal. Os dois restantes túmulos são lisos, e contêm legendas epigráficas alusivas aos tumulados, Pero Vicente e Constança Vaz, pais do instituidor da capela.
Ao longo dos séculos, muitas foram as fases de construção e de decoração da igreja matriz. No período manuelino, continuou a despertar o interesse de alguns nobres locais como lugar de última morada, construindo-se, então, duas capelas de abobadamento polinervado, característico das primeiras décadas de Quinhentos. Na segunda metade do século, ter-se-á produzido uma grande reforma, responsável pela imagem geral do templo que hoje possuímos. Nela se insere o portal principal, maneirista, de arco de volta perfeita inserido em alfiz rematado por frontão triangular moldurado. No século XVIII, revestiram-se as paredes interiores com azulejos azuis e brancos saídos das oficinas de Lisboa, datando também desse período os retábulos de talha dourada.
PAF