Nota Histórico-Artistica
Apesar de constituir um dos mais importantes marcos culturais da freguesia de Cervães, este cruzeiro não foi ainda objecto de um rigoroso e monográfico estudo. Desta forma, desconhece-se a sua exacta cronologia, assim como pode discutir-se se o local onde se encontra corresponde ao original.
Estilisticamente, o cruzeiro distingue-se em duas partes distintas: o suporte e a composição escultórica do coroamento. Esta última parece ser a mais antiga revelando, na sua aparente inexpressividade e modéstia escultórica, uma linguagem muito comum pelas décadas finais da Idade Média, entre os finais do século XV e os primeiros anos do XVI.
Trata-se de uma cruz relativamente bem delineada, tendo em consideração que o material trabalhado é o granito, com extremidades decoradas com motivos vegetalistas e a base com um anel torso.
Numa das faces, representou-se Cristo Crucificado, enquadrado por baldaquino de feição tardo-gótica, e ladeado por duas figuras sobre pequenas mísulas, talvez não os Evangelistas, como pretendem Isabel Sereno e João Santos (DGEMN, on-line, 1994), mas sim Nossa Senhora e São João, figuras que costumam acompanhar as composições do Calvário. Na outra face, ilustra-se Nossa Senhora com o Menino, fazendo deste cruzeiro um verdadeiro eco do princípio e do fim da história de Jesus na Terra, o alfa e o ómega da tradição cristã. A representação de Nossa Senhora nas duas faces ilustra também a Paixão de Maria, que se inicia com a morte de seu filho, ligando-se, assim, as duas mais importantes figuras da religiosidade cristã nos finais da Idade Média. A Virgem com o Menino é igualmente ladeada por duas figuras de difícil interpretação, sendo de admitir tratar-se de São José e São João Baptista, embora esta seja uma interpretação que careça de um estudo rigoroso do monumento.
Posteriormente, provavelmente já no século XVII, o cruzeiro foi adaptado ao actual suporte. Dele faz parte o embasamento quadrangular, composto por quatro degraus e delimitado nos ângulos por pequenos pilares facetados encimados por achatados pináculos, a base igualmente quadrangular onde assenta o suporte da coluna que compõe o fuste e o coroamento deste, em capitel toscano.
A diferença estilística entre o cruzeiro e o restante conjunto faz supor que, em determinado momento da época moderna, se pretendeu monumentalizar este elemento patrimonial, um típico cruzeiro de caminhos do final da Idade Média, que se instituiu como marco histórico-cultural da localidade de Cervães, em pleno centro nevrálgico da povoação.
PAF
Diploma de Classificação
Decreto n.º 40 361, DG, I Série, n.º 228, de 20-10-1955 (ver Decreto)
Número do Processo
Não disponível