Nota Histórico-Artistica
Imóvel
Localizado nas proximidades da estação de comboios que se situa a Norte, em pleno centro da Amadora, o edifício da antiga Pensão Primavera, hoje residencial com o mesmo nome, é um dos mais importantes testemunhos arquitetónicos do início da vida desta cidade com origem nos finais do século XIX. A Amadora, ou Porcalhota como era inicialmente conhecida esta localidade, resultou da expansão urbanística ligada à inauguração da linha de caminho-de-ferro que, desde 1887, passou a ligar a capital a Sintra.
Situada hoje numa artéria comercial, a pensão encontra-se também perto dos Recreios Desportivos, outro interessante edifício igualmente dos inícios do século XX. São poucos os imóveis que restam na cidade deste período, tendo-se perdido também os espaços verdes, nomeadamente jardins e logradouros, que lhes estavam associados. Refira-se que a antiga pensão, outrora isolada, encontra-se hoje ladeada por edifícios da segunda metade do século XX.
O imóvel ostenta uma composição simétrica, atualmente composta por três lojas ao nível do rés-do-chão, um primeiro andar com águas furtadas abertas numa cobertura de duas águas e um corpo central que incluiu mais um piso, apresentando, no seu todo, uma nítida influência neoclássica. O ritmo da fachada principal recém-restaurada e pintada de verde, contrasta com o branco da cantaria presente nas pilastras que surgem tanto nos cantos, como no corpo central, observando-se, ainda, um remate em cornija saliente e frontão central. Acentuando a simetria do desenho, surgem os vãos das janelas de peitoril com molduras de cantaria em arco de volta perfeita com fechos e impostas salientes. Tanto ao nível do piso nobre, como do sobrelevado, abrem-se também janelas de sacada com elegantes varandas de cantaria sustentadas por mísulas salientes.
No piso térreo, com ligação direta para a rua abre-se, ao centro, sob o varandim principal, um portal de entrada em arco de volta perfeita. Observa-se, também, que as atuais vitrinas das lojas do piso térreo vieram alterar a coerência arquitetónica do imóvel, subsistindo, no entanto, parte de um soco em lajes de cantaria que teria grande expressividade dada a altura que possui. A este nível, e de cada lado da porta principal, era possível ver, no desenho original constante do processo de obras (Proc. nº 16 de 1920 - Arquivo da CMA), dois vãos em arco abatido que, supostamente, correspondiam aos espaços das antigas lojas, subsistindo hoje apenas o que se situa mais a Sul.
Relativamente à fachada posterior, observa-se que esta se encontra em pior estado de conservação, tendo sido adossadas construções que, aos poucos, foram ocupando o espaço do logradouro. Deste lado é também possível verificar, apesar de alteradas, quatro águas furtadas e uma grande chaminé de perfil quadrangular.
Dado que a relevância patrimonial de um edifício não se pode limitar apenas à fachada, destaca-se um conjunto de elementos arquitetónicos e decorativos com interesse no seu interior, tais como a escadaria de acesso aos diferentes pisos em madeira e ferro forjado decorado com elementos neoclássicos, os estuques pintados e os azulejos brancos com elegantes motivos florais. De destacar, ainda, a existência de interessantes pavimentos em mosaico hidráulico, algo comum para a época.
História
O primeiro projeto apresentado em 1920 consistia, segundo desenho existente no processo, num edifício mais baixo que o atual, sem o andar sobrelevado ao centro.
Desde a sua origem este imóvel foi construído para receber hóspedes. No entanto, segundo informações do processo, terá sido reservado um espaço próprio para residência do proprietário zona que, eventualmente, poderá corresponder ao piso mais alto que não constava do projeto inicial. Atualmente o imóvel continua a manter a função original tendo também albergado, desde 1930 e até época recente, a sede do Grupo Columbófilo da Amadora.
Maria Ramalho/DGPC/2017.