Nota Histórico-Artistica
Imóvel
Com forte presença urbana, o edifício da Rua São João da Mata, 17 a 23, freguesia da Estrela, concelho e distrito de Lisboa, construído nos princípios do século XIX, muito equilibrado no seu desenho geral, ostenta uma elegante fachada de tradição pombalina, com decoração que transmite o gosto neoclássico. Regular, simétrica, visualmente tripartida, rematada por platibanda e revestida integralmente de azulejos lisos, de cor amarela, com cercadura de motivos neoclássicos a castanho que enquadram o recorte das cantarias dos diversos vãos, os quais não estão pintados em série sobre fiadas isoladas, mas antes feitos a partir do remate dos panos de parede revestidos, ainda à maneira do século XVIII, pode ser considerado como um dos pioneiros exemplares no revestimento cerâmico das fachadas em Lisboa, tendência que só se vulgarizou a partir de 1850. No seu exterior, para a além da azulejaria e da cantaria, são de qualidade assinalável os trabalhos de serralharia, com notório rendilhado do madeiramento das bandeiras dos vãos das janelas, formando liras no andar nobre e círculos e semicírculos no piso que lhe é superior. É um edifício de habitação plurifamiliar, com 1 fogo por piso, à exceção do piso térreo, tem entrada pelo n.º 19, fazendo-se pelos n.º 17, 21 e 23, o acesso às áreas comerciais, dando estas duas últimas portas acesso a um grande estabelecimento com os tetos abobadados, uma oficina de carpintaria e marcenaria, no "andar nobre", o piso acima das sobrelojas, funciona desde 1974 a creche e jardim de infância Apros-Associação de Educação e Promoção Social de Santos. Sendo um prédio de rendimento, o seu proprietário entendeu não limitar a decoração artística ao piso mais nobre do edifício, antes proporcionando a todos os seus moradores e visitantes uma ablução de luz e cor nas escadas, através de um belo "lambrim" de finos ornatos vegetalistas a enquadrar a larga claraboia. No andar nobre as paredes e tetos expressam o conhecimento, do autor, relativamente à gramática neoclássica: pendentes, grinaldas, mascarões, volutas e outros ornatos de flores e ramagens, aves, leques, medalhões, bustos e ornatos diversos, belíssimas composições em "trompe l'oeil". A azulejaria interior reúne excelentes exemplos de decoração utilitária, nomeadamente ao nível das cozinhas.
História
Este edifício, que em finais do século XIX terá pertencido à Viscondessa de Leceia, está localizado no quarteirão que após a implantação do Convento da Ordem de Religiosos Carmelitas Descalços de São Alberto, projeto do arquiteto Filippo Terzi, fundado em 1606, que dá pelo nome de Quarteirão dos Marianos em cuja esquina se encontra o seiscentista Palácio dos Condes de Murça. Segundo a tradição, o lugar de Santos-o-Velho remonta ao início da era cristã e tem o seu nome ligado ao episódio dos Santos Mártires de Lisboa, Veríssimo, Máximo e Júlia, filhos de um nobre Senador, supliciados por ordem do delegado de Diocleciano. Assim, depois de atirados ao rio Tejo os seus corpos terão dado à costa e sido sepultados no lugar de "Santos", nome que se perpetuou na toponímia. Posteriormente, D. Afonso Henriques terá mandado construir uma ermida no lugar, a qual veio a atrair toda uma comunidade religiosa feminina, desde as Comendadeiras de Santiago, Trinas, Isabéis, Brígidas, Madres de Goa, às Bernardas, em oposição às colinas a nascente onde se fixaram as comunidades masculinas de Jesuítas, Franciscanos, Agostinhos e Dominicanos. Da sua génese mítica ao surto urbanístico quinhentista, da sua consolidação no século seguinte e expansão em finais do século XVIII, salienta-se essencialmente a Madragoa no século XIX, pela qualidade ambiental do seu conjunto, decorrente da harmonia genérica do edificado e da sua implantação num tecido com um desenho urbano coerente e qualificado. Destacam-se no bairro diversos edifícios pela sua singularidade, raridade tipológica ou qualidade intrínseca, sendo um dos exemp
Elisabete Serol
DGPC, 2017