Nota Histórico-Artistica
Imóvel
O edifício da Quinta do Hespanhol, situado em Torres Vedras, configura um tradicional solar setecentista de planta quadrada, antecedido por pátio murado e fechado por portão. A fachada principal é marcada pelo corpo central da escadaria dupla, de lanços divergentes, que alcança o patamar do primeiro piso, onde se desenvolve um elegante alpendre de feição italianizante ritmado por duas colunas, coberto por abobadilha e flanqueado por janelas geminadas de tipologia manuelina. A cantaria tardo-gótica da porta principal é encimada por medalhão de feição renascença com a efígie de João Lopes Perestrelo e a data da instituição. O andar superior, acrescentado na reconstrução setecentista, levanta-se sobre o corpo à direita da fachada e sobre a loggia do primeiro piso, na forma de varanda com parapeito de grilhagens de tijolo assente sobre robusta arquitrave com elaborada pedra de armas setecentista. Nas restantes fachadas rasgam-se vãos de tipologia manuelina, alguns originais e outros de fatura revivalista, bem como cantarias setecentistas. Durante a ocupação francesa da quinta terá aí funcionado uma prisão, da qual resta uma janela gradeada no piso térreo. Uma sala lateral deste piso abriga o requintado retábulo em talha dourada, aparentemente setecentista, as alfaias litúrgicas e a imaginária da antiga capela, situada junto do jardim, e em cujo interior se destacam os azulejos azuis e brancos desenhados por Leopoldo Luigi Batistini.
Do património integrado da quinta destacam-se alguns silhares de azulejos, como os exemplares datados da reconstrução pós-terramoto que replicam a decoração do Salão Nobre do Palácio de Sintra, bem como diversos azulejos da Fábrica de Santana, de provável fabrico oitocentista, e ainda pedras armoriadas de considerável interesse. A propriedade, muito alterada ao longo do tempo, inclui pátios, espaços ajardinados, matas seculares e anexos de apoio às atividades desenvolvidas, antigamente agrícolas (constituindo esta uma das mais antigas quintas históricas, de recreio e produção, ainda conservadas no concelho) e hoje igualmente turísticas.
História
O fundador da quinta terá sido o italiano Filippo Pallastrelli, pai de Bartolomeu Perestrelo, navegador, descobridor e primeiro capitão donatário de Porto Santo. Pallastrelli chegou a Portugal em finais do século XIV, tendo recebido de D. João I armas portuguesas, as casas que constituem o Palácio de Subripas, em Coimbra, e várias terras no termo de Torres Vedras, onde terá sido instituído o domínio do Hespanhol, provavelmente a mais antiga casa senhorial portuguesa continuamente habitada pela mesma linhagem. A sucessão ficou assegurada por Rafael Perestrelo, cujo presumível filho, o navegador João Lopes Perestrelo, fidalgo da Casa Real de D. João II e capitão da armada de Vasco da Gama na sua segunda viagem à Índia, jaz sepultado na igreja paroquial de São Pedro de Torres Vedras com sua mulher e filho primogénito, António Perestrelo. Um neto e homónimo de João Lopes Perestrelo vinculou em 1542 a propriedade, que não mais saiu da posse da família, a ele se devendo a reconstrução da quinta, cujas casas originais, quatrocentistas, haviam sido arrasadas pelo terramoto de 1512, e das quais apenas restará parte de uma parede mestra que corre ao longo de uma sala do piso térreo. O edifício quinhentista ficou por sua vez danificado em 1755, resultando o atual solar de uma empreitada da segunda metade do século XVIII, que terá integrado cantarias de portas e janelas de tipologia manuelina, complementadas por outras de cunho revivalista.
De realçar a invocada ligação destes Perestrelos a Cristóvão Colombo, que, segundo biografia apócrifa, teria casado com Filipa Moniz Perestrelo, suposta filha de Bartolomeu Perestrelo, constituindo esta relação um dos mais fortes eixos simbólicos que estruturam a história da casa.
Sílvia Leite
DGPC
2015
Diploma de Classificação
Portaria n.º 477/2017, DR, 2.ª série, n.º 241, de 18-12-2017 (ver Portaria)
Relatório final do procedimento aprovado por despacho de 2-10-2017 da diretora-geral da DGPC
Anúncio n.º 116/2017, DR, 2.ª série, n.º 134, de 13-07-2017 (ver Anúncio)
Despacho de concordância de 16-11-2016 da diretora-geral da DGPC
Parecer favorável de 3-11-2016 da SPAA do Conselho Nacionl de Cultura
Proposta de 10-10-2014 do Departamento dos Bens Culturais da DGPC para a classificação como MIP do Solar da Quinta Velha do Hespanhol, incluindo o seu património artístico integrado
Anúncio n.º 149/2014, DR, 2.ª série, n.º 112, de 12-06-2014 (ver Anúncio)
Despacho de abertura de 12-05-2014 do diretor-geral da DGPC
Proposta de 30-04-2014 da DGPC para a abertura de procedimento de classificação de âmbito nacional
Requerimento de classificação de 3-12-2013 do proprietário
Número do Processo
Não disponível