Nota Histórico-Artistica
De acordo com a inscrição presente sobre o portal principal, alusiva à sagração do templo, ocorrida a 26 de Julho de 1749, podemos estabelecer a primeira metade do século XVIII como o período mais provável para a edificação da ermida de Nossa Senhora da Purificação.
De planta longitudinal, que articula capela-mor rectangular com nave única, antecedida por galilé, a ermida caracteriza-se por uma grande depuração ao nível dos alçados exteriores. A torre, de planta quadrada, respeita a organização da fachada, prolongando o friso que, no alçado principal, separa o arco do piso térreo, da janela com varandim e moldura recortada, do registo superior. Aberta por frestas na base, e pelas sineiras de volta perfeita no registo que se sobrepõe à cornija, a torre é coberta por abóbada bolbosa, com fogaréus no eixo dos cunhais. Este remate, a par da janela do coro, são os elementos de maior dinamismo e decorativismo do conjunto, que não deixa de revelar alguma desproporção, principalmente pela configuração da torre que, em relação à fachada, parece excessivamente larga e elevada, motivando um impacto significativo na área envolvente.
O interior, profusamente decorado e tirando partido da conjugação de várias técnicas e materiais, com o objectivo de criar um espaço apelativo e sensorial mas já de linguagem rococó, contrasta fortemente com o exterior. A nave é percorrida por um silhar de azulejos, com cercaduras de motivos de asas de morcegos que envolvem painéis ornamentais, executados num azul mais fraco, e figurações marianas: Nascimento da Virgem, Apresentação, Casamento, Anunciação, Jesus na Sinagoga, Fuga para o Egipto, Circuncisão e Adoração dos Pastores (SIMÕES, 1979, p. 330).
Sobre os azulejos encontramos um conjunto de trabalhos em estuque, que preenchem a totalidade dos panos murários. São estas massas estucadas em relevo, e pintadas, que desenham arcos de volta perfeita, nas paredes da nave, no interior dos quais encontramos, para além de outros elementos, (como o púlpito, do lado do Evangelho), motivos diversos e figurações dos Evangelistas. Os nichos que ladeiam o arco triunfal seguem o mesmo modelo, com a representação de São Sebastião e Santa Bárbara. A abóbada da nave apresenta, também, o mesmo género de decoração, conferindo unidade ao conjunto, e contribuindo para a sua relevância enquanto espaço totalmente revestido por estuques, numa tendência que se vinha a impor em Lisboa, desde os meados do século XVIII, e que conheceu na figura de João Grossi a sua máxima expressão.
Na capela-mor, mantém-se a mesm unidade decorativa, mais geometrizante e em tons de dourado . O retábulo-mor exibe a imagem de Nossa Senhora com o Menino. O revestimento azulejar conserva, também, um esquema idêntico ao da nave, com episódios alusivos à Assunção da Virgem e à Purificação de Nossa Senhora. De acordo com Santos Simões, este conjunto cerâmico deve remontar à década de 1770 (1770-75), não sendo de excluir a possibilidade de atribuir a sua execução à Fábrica do Rato, nos seus primeiros anos de laboração (SIMÕES, 1979, p. 330).
Concluímos, assim, que, à campanha de obras da primeira metade do século XVIII sucedeu, anos mais tarde, a campanha decorativa do interior, marcada pela utilização de uma linguagem azulejar própria da segunda metade da centúria, e pela preferência dos trabalhos em estuque, que se tornavam uma opção cada vez mais comum.
(Rosário Carvalho)