Nota Histórico-Artistica
Imóvel
O Palácio do Salvador é um singelo mas imponente edifício setecentista de cinco pisos, cuja larga frontaria, enquadrada por cunhais simples e cornija sob beirado, domina o Largo do Salvador, no coração do bairro lisboeta de Alfama. O andar nobre destaca-se pelas janelas de sacada com guardas de ferro fundido e cornija saliente, contrastando com as janelas de guilhotina dos pisos inferiores. O piso térreo, revestido até meia altura a cantaria, é ocupado por lojas de vãos variados, com molduras simples, à exceção do portal de aparato, largo vão apilastrado encimado por janelão semicircular com entablamento de moldura simples, enobrecido ao centro por pedra de armas sobre cartela barroca flanqueada por dois pináculos de remate cónico. O portal dá acesso a uma passagem que abre o pátio central, no núcleo mais antigo do imóvel, composto por duas galerias enfrentadas, com arcos triplos, a partir das quais se acede às antigas lojas, adega e cocheiras, bem como aos pisos superiores, através de uma escadaria de dois lanços em mármore.
O corpo principal define, com uma larga ala transversal, um pátio interior delimitado, a norte, por uma ala mais pequena, em cuja continuidade se desenvolvem os anexos e o jardim das traseiras.
No interior, compartimentado em salas interligadas, destacam-se os salões do piso nobre, onde se conservam interessantes silhares de azulejos setecentistas, tendo sido recentemente reintegrados alguns tetos apainelados da mesma época, e ainda o altar em talha neoclássica, dourada e policromada, da capela, particularmente notável pelo pórtico que o enquadra, de desenho clássico, em mármore rosa, e pela tela de grande qualidade, de feição italianizante, figurando uma Nossa Senhora da Conceição, provenientes do Palácio dos Condes de São Miguel, em Arroios. As lojas dos pisos térreos exibem coberturas em abobadilha, sendo igualmente visíveis arcos em alvenaria de tijolo.
História
Nas casas nobres que constituíam o núcleo primitivo, trecentista, sobre o qual se viria a erguer o palácio, morou João Esteves da Azambuja, conselheiro do rei D. Pedro e alcaide-mor de Lisboa. Em sua memória e de seu irmão Afonso Esteves fundou o filho deste último, João Afonso Esteves da Azambuja, então bispo de Silves, uma congregação religiosa no local, concedendo-lhe D. João I, em 1391, o padroado de São Salvador, da qual fez doação perpétua à Ordem de São Domingos, cujo braço feminino passaria a residir no novo cenóbio, concluído em 1478. As casas nobres anexas ao Convento do Salvador foram legadas por João Afonso Esteves da Azambuja a seu sobrinho-neto Álvaro Pires de Távora, via pela qual chegou a propriedade à casa dos condes de Arcos, posteriormente de São Miguel, em cuja posse se conserva. Desconhece-se a evolução arquitetónica do conjunto original, do qual nada resta, sendo presumível que tenha sofrido profundas intervenções ao longo das centúrias, até ruir no terramoto de 1755, quando ficou igualmente tombado o corpo da igreja vizinha. Foi reconstruído por iniciativa do seu proprietário à época, D. Marcus José de Noronha e Brito, 6.º conde dos Arcos, com projeto seguramente gizado antes de 1768.
Para além do seu valor intrínseco, o Palácio do Salvador assume ainda destaque no contexto da sua longa relação com o desenvolvimento desta zona da cidade, bem como da relativa raridade dos exemplares de arquitetura palaciana erguidos no período da reconstrução pombalina, que torna particularmente singular a cronologia precoce do imóvel. A conceção urbanística do quarteirão por ele ocupado é bem exemplificativa dos novos conceitos que a ela presidiram, nomeadamente a regularização dos lotes e fachadas, convivendo com uma malha de raiz medieval que se mantém, na sua maior parte, inalterada pelo menos desde o século XVI.
Sílvia Leite
DGPC
2015
Diploma de Classificação
Portaria n.º 658/2015, DR, 2.ª série, n.º 172, de 3-09-2015 (ver Portaria)
Relatório final do procedimento aprovado por despacho de 6-08-2015 do subdiretor-geral da DGPC
Relatório final de 6-08-2015 com proposta de alteração da designação para "Palácio do Salvador, incluindo o património artístico integrado
Anúncio n.º 153/2015, DR, 2.ª série, n.º 111, de 9-06-2015 (ver Anúncio)
Despacho de concordância de 7-05-2015 do diretor-geral da DGPC
Parecer favorável de 6-05-2015 da SPAA do Conselho Nacional de Cultura
Proposta de 10-10-2014 do Departamento dos Bens Culturais da DGPC para a classificação do Palácio do Salvador, incluindo o seu património artístico integrado, como MIP
Anúncio n.º 136/2014, DR, 2.ª série, n.º 108, de 5-06-2014 (ver Anúncio)
Despacho de abertura de 12-05-2014 do diretor-geral da DGPC
Proposta de 30-04.2014 do Departamento dos Bens Culturais da DGPC para a abertura de procedimento de classificação de âmbito nacional
Requerimento de 5-04-2013 do proprietário para a classificação do Palácio do Salvador