Nota Histórico-Artistica
Imóvel
O Pavilhão de recreio datado de 1924, autoria do Arq. Porfírio Pardal Monteiro, situa-se na marginal do Dafundo, então na propriedade do Dr. Augusto Soares, em plena zona de aterro, onde, na transição do século XIX para o século XX, se implantaram inúmeras moradias de veraneio. O pavilhão faz esquina entre a Avenida Ivens (Avenida Marginal) e a Rua Pereira Palha. É um edifício de dois pisos, projetado inicialmente com um uso não habitacional, destinado a garagem e apoio, no R/C; o 1.º piso contempla duas salas de recreio, pequena cozinha e WC, e a varanda aberta com alpendre para usufruto da paisagem (posteriormente encerrada).
Este projeto como outros executados nos seus primeiros anos enquanto recém-licenciado, apresenta alguns dos aspetos que se tornarão constantes na sua obra (nomeadamente a organização de vãos em grupos de três janelas - aqui de acesso à varanda), oscila entre o puro revivalismo (azulejos azuis e brancos), o ecletismo propriamente dito (colunas clássicas, grades em ferro fundido) e a casa à antiga portuguesa (alpendre/varanda, beiral, registo de azulejos).
A construção não cumpriu o projetado pelo arquiteto, nomeadamente, a nível da fachada frontal: o portal tem um beirado de telha encimado por um registo azulejar, quando o projeto apresentava um frontão rematado por verga de cantaria, a janela à esquerda mantem um vão com caixilharia de três bandeiras verticais, mas a diferença entre o projetado e o construído é muito grande, pois uma vez mais foi aplicado um beirado de telha sobre a verga da janela.
A referida casa e quinta de São Pedro demolidas nos anos 70 do século XX, tendo sido construída no mesmo espaço uma urbanização de edifícios de sete pisos, enquadrados pela volumetria de cinco pisos do Bairro de rendimento de Clemente Vicente, construído em 1922-1924.
No interior são visíveis os estragos em alguns dos tetos, provocados por infiltrações de água a partir da cobertura, a falta de portas e bandeiras em diversas salas interiores, diverso tipo de lixo acumulado, bem como o roubo de um dos painéis azulejares que forram os paramentos interiores da varanda.
Do programa decorativo interior há apenas a destacar os painéis azulejares da varanda, em azul e branco, assinados por "AR. Santos" e produzidos pela Fábrica Viúva Lamego, Lisboa, aplicados nos paramentos interiores da varanda e inspirados em modelos barrocos do século XVIII. São painéis figurativos representando diversas cenas bucólicas, no campo e ribeirinhas, cercadas por molduras compostas por cartelas concheadas e folhagens.
Estes painéis, certamente baseados em estampas (ou mesmo outros painéis azulejares), de boa manufatura, criando pequenos quadros decorativos, especialmente adaptados aos espaços da varanda, impõe-se de maneira dominante em termos de elementos de arte decorativa presentes no imóvel.
História
O projeto de Pardal Monteiro, corresponde ao processo de construção CMO n.º 45, de 1924 para um pavilhão de recreio a implantar na propriedade do Dr. Augusto Soares.
Foi construído na serventia da quinta de S. Pedro que ligava a casa apalaçada à avenida marginal. É o único vestígio que resta da referida quinta. Confina a poente com a Casa do Cedro, propriedade com um extenso jardim e casa apalaçada mandada construir por Roberto Ivens no início do século XX, que ainda resta e que mantém características semelhantes à desaparecida quinta de S. Pedro.
O edifício foi alvo, ao longo da sua existência, de diversas obras que adulteraram a fachada principal, nomeadamente, as colunas da varanda com o fechamento dos vãos com envidraçados. Estas intervenções podem contudo ter ocorrido ainda na fase inicial de execução da obra por motivos desconhecidos.
Uma das primeiras obras de Pardal Monteiro, dentro ainda de um estilo muito eclético, e com influências da casa "à antiga portuguesa". Risco ainda muito influenciado pelo seu estágio no atelier de Ventura Terra.
Paulo Martins
DGPC, 2018