Nota Histórico-Artistica
Embora descobertos e primeiramente escavados ainda em oitocentos, foi nos anos trinta que o Professor da Universidade do Porto, António Augusto Esteves Mendes Correia (1888-1960), conhecido antropólogo e arqueólogo, dirigiu escavações na estação paleolítica do Cabeço da Mina (Muge), às quais se somaram as conduzidas, já na década de quarenta, pelo conhecido pré-historiador francês, abade Henri Breüil (1877-1961) e pelo geólogo, paleontólogo e arqueólogo de nacionalidade francesa, mas de origem russa, Georges Zbyszewski (1909-1999), no quadro de actividades desenvolvidas no âmbito dos "Serviços Geológicos de Portugal", designadamente no que respeitava ao reconhecimento e caracterização das formações quaternárias no actual território português (RIBEIRO, J. P. C., 1990, pp. 39-40).
Retomava-se, assim, uma tradição firmada pela Commissão Geologica na segunda metade do século XIX (Cf. COSTA, F. A. P. da, 1865), uma vez que os concheiros de Muge foram identificados, justamente, por colaboradores do organismo que os procederam, e numa comprovação dos excelentes recursos cinegéticos que a zona apresentava, suficientemente aliciantes para serem procurados de forma, mais ou menos, sistemática, por diferentes comunidades desde o alvor da Humanidade, atraídas pelas potencialidades conferidas pelas linhas de água aí existentes, a exemplo das ribeiras de Muge, do Vale do Zebro, da Glória e do paúl de Magos.
Um estudo que foi prosseguido nos anos subsequentes, dessa feita (entre as décadas de cinquenta e sessenta) por mão de Jean Roche, do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) (Cf. ROCHE, J., 1972).
Na verdade, a demanda da zona por parte de comunidades pré-históricas tornou-se, com o tempo, sazonal, já em pleno Mesolítico, período de transição do Paleolítico para o Neolítico. Surgiram, então, os denominados "concheiros", isto é, locais onde "[...] a exploração de moluscos marinhos ou terrestres deixou uma marca impressiva, em termos arqueológicos." (JORGE, S. de O., 1990, p. 83), traduzindo um fenómeno de fixação gradual das gentes num mesmo espaço, neste caso nas proximidades de estuários e pequenos rios ou ribeiros (ARNAUD, J. M., 1986, nota 1), integrando, no entanto, sistemas de povoamentos mais vastos (Cf. Id., 1981), [...] compostos por acampamentos mais ou menos duráveis, de variados tipos, consoante os recursos a explorar, a época do ano escolhida para as diferentes actividades de subsistência, e o número de indivíduos residentes." (JORGE, S. de O., Idem, p. 83).
Todos estes sítios apresentam materiais predominantemente microlíticos, de entre os quais lamelas assim como geométricos para composição de arpões, tridentes, anzóis, etc., elementos, por si só, indicadores das actividades predominantes no seio dos respectivos grupos, como seriam a pesca e a caça. Aferição esta que poderá ser facilmente demonstrada nos vestígios osteológicos exumados no local, sendo pouco expressiva a presença de cerâmica, em contraponto aos exemplares de moluscos, tanto terrestres como aquáticos, significativamente representados na respectiva dieta alimentar.
Os concheiros de Muge perfazem grandes colinas artificiais fortemente destacadas na paisagem, com uma altura máxima de cinco metros, decorrentes da acumulação de excedentes das actividades quotidianas registadas no mesmo local (e, sobretudo, de uma acumulação invulgar de conchas) ao longo de um amplo período de tempo, como sucede nos exemplares de Moita de Sebastião, Cabeço da Amoreira e Cabeço da Arruda, nos quais se respeitaria "[...] uma simbologia do espaço bem definida." (Id., Idem, p. 86), enquanto os defuntos eram depositados por entre os resíduos das acções diárias destas mesmas comunidades, suscitando a maior curiosidade durante a visita especialmente programada para o efeito no âmbito do IX Congresso de Archeologia Prehistorica (Lisboa, 1880).
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