Nota Histórico-Artistica
Instalado na antiga igreja de São João das Donas, contígua ao Mosteiro de Santa Cruz, o café Santa Cruz constitui um dos espaços mais característicos da cidade de Coimbra, cujas instalações remontam à primeira metade do século XVI. (MARINHO, 1999).
De facto, este templo renascentista data de cerca de 1530, devendo-se a sua fundação a Frei Brás de Braga, o reformador e prior dos frades de Santa Cruz, e à necessidade de libertar a igreja do Mosteiro de um excesso de fiéis, devolvendo-a exclusivamente aos monges. Esta intervenção insere-se na reforma integral do mosteiro, ordenada por D. Manuel, e que incluiu o complexo monástico, a igreja e os túmulos de D. Afonso Henriques e seu sucessor, D. Sancho I, a Sala do Capítulo, a Capela de São Miguel e o claustro do Silêncio.
Assim, e após a extinção do convento das Donas no local onde actualmente se erguem os Paços do Concelho, a capela do Mosteiro de Santa Cruz com a mesma invocação foi reconstruída em dimensões superiores e com entrada independente. Nestes anos do século XVI, a igreja funcionou como paroquial da freguesia de Santa Cruz.
No início do século XX serviu de carpintaria e depois como agência funerária. Em 1919 foi transformada em café restaurante, assumindo-se como local de tertúlia desportiva da União de Coimbra, em competição com o Café Arcádia, símbolo da Académica. Actualmente é frequentado predominantemente por estudantes, mas as suas características arquitectónicas atraem inúmeros eventos culturais.
O interior do café mantém a primitiva estrutura atribuída a Diogo de Castilho (c. 1530), cujo espaço de planta rectangular pouco acentuada corresponde à nave da igreja, e onde se distingue, ao fundo, aquela que foi outrora a capela-mor. Ambos os espaços são cobertos por abóbadas de nervuras, da autoria de Castilho (BORGES, 1987, p. 86). Nas paredes da nave rasga-se uma capela de cada lado, com arcos semi-circulares renascentistas O pavimento encontra-se num nível superior ao original, que era idêntico ao de Santa Cruz. Os vitrais sobre a entrada, conferem uma luz muito particular a um ambiente sóbrio, cuja decoração exibe motivos de madeira exótica nas paredes, mesas hexagonais com tampo de mármore e cadeiras de madeira e couro.
A fachada, revivalista, evoca a arquitectura coimbrã novecentista, mas conservando ainda, da época manuelina, os vãos do segundo piso.
(Rosário Carvalho)
Diploma de Classificação
Decreto n.º 7 733, DG, I Série, n.º 206, de 11-10-1921 (ver Decreto)
Número do Processo
Não disponível