Nota Histórico-Artistica
A existência de "memoriais", ou "marmoriais", está atestada para o território português desde, pelo menos, o século X e são múltiplas as formas que as Inquirições do século XIII registaram (SILVA, 1987, p.89), num sintoma que deve ser interpretado como de maior concentração e diversidade deste tipo de monumentos e da sua inequívoca relevância na paisagem, como ponto de referência. Apesar disso, e do número de memoriais em relativo bom estado de conservação que chegaram até aos nossos dias, são ainda muitas as dúvidas a respeito da funcionalidade desta forma monumental. A mais consensual é a que a relaciona estas estruturas com um conteúdo funerário celebrativo, de uma ou mais pessoas (FERNANDES, 1983, p.98), característica que se associa a uma inegável intenção simbólica, que perdurou para cá da própria função inicial (SILVA, 1987, p.95).
O memorial de Alpendurada segue um padrão comum a outros monumentos análogos na região do Douro, de que se destacam os de Irivo (Penafiel), e Burgo (Arouca). Esta proximidade estilística faz com que se possa equacionar uma relativa contemporaneidade entre eles, remetendo o conjunto para os meados do século XIII, altura em que se pensa ter sido edificado o de Burgo, por ocasião do cortejo fúnebre da rainha Santa Mafalda, do Porto até ao mosteiro de Arouca, onde recebeu sepultura. No entanto, o facto de não apresentar qualquer decoração, a par da pouca monumentalidade do memorial, são indicadores que devem motivar algumas reservas nesta apreciação cronológica e suscitar a hipótese de se tratar de uma obra ligeiramente anterior a essa data.
Integralmente construído em granito, o monumento apresenta uma estrutura verticalmente tripartida em dupla face. A base compõe-se por plinto de duas fiadas de silhares bem aparelhados, que formavam uma espécie de caixa onde, de acordo com Abílio MIRANDA, 1937, pp.12-13, se abriam duas cavidades, de tipologias distintas, preenchidas por dois túmulos, "naturalmente de marido e esposa". A parte central do monumento corresponde a um arco de volta perfeita, formado por dez aduelas sem decoração, que enquadravam essa cavidade sepulcral. Finalmente, a estrutura é coroada por remate horizontal antecedido por cornija moldurada, cuja secção central apresenta talhe em duas águas, à maneira de telhado.
A ausência de decoração e a sobriedade do conjunto é uma das características mais importantes, que contrasta com a solução encontrada para o memorial de Burgo, cujos motivos ornamentais permitiram aproximá-lo da escola românica do mosteiro de Paço de Sousa. Em Alpendurada, existe um único elemento que mereceu um tratamento escultural, concretamente a tampa da suposta cavidade sepulcral, que foi decorada com espada de punho esférico. Este símbolo destinava-se certamente a identificar o/s tumulado/s, mas a sua memória não chegou até hoje.
Em anos recentes, o memorial foi deslocado do seu local original, devido à abertura da EN 210. Também esta iniciativa teve como resultado uma inequívoca "monumentalização" do conjunto, uma vez que este acabou por ficar em plano superior ao da própria via, tutelando a passagem a todos que a percorrem. Em 1976, procedeu-se a uma consolidação da base, mas nenhuma outra campanha restauradora foi, até agora, identificada.
PAF