Nota Histórico-Artistica
Este solar lisboeta terá sido construído em meados do século XVI por D. Rui ou Rodrigo Fernandes de Almada, tesoureiro, escrivão e cônsul de Portugal na Flandres, no reinado de D. Manuel, depois embaixador da corte em França e conselheiro de D. João III, e finalmente Provedor da Casa da Índia. A designação de Palácio Almada-Carvalhais provém de um dos herdeiros, nomeado Conde de Carvalhais em 1824.
A elegância e notabilidade do palácio renascentista não são visíveis da rua, para onde deita apenas uma estreita fachada, entalada entre as construções contíguas. O primeiro pormenor digno de nota é, ainda assim, a localização: o primeiro proprietário, homem do mundo acima de tudo, manda erguer a sua casa onde vinha dar o Tejo, tendo existido sem dúvida um cais privativo na praia então fronteira. Embora discreta, a fachada ergue-se acima dos restantes corpos do palácio em um andar, e funcionando como uma torre de reminiscências senhoriais, que inclusivamente teria tido um coroamento de ameias piramidais. Aí se exibe ainda o brasão de armas dos Almadas (com diferença no canto superior direito, indicando transmissão por via materna), sobre o janelão do primeiro piso.
O conjunto do edifício possui planta rectangular e volumetria escalonada, coberta por telhados de duas águas; as fachadas apresentam três pisos, possuindo os dois últimos janelas de sacada que deitariam, na frontaria principal, sobre o rio.
O acesso ao interior faz-se por uma porta monumental de vão recto, comunicante com um túnel coberto por abóbada de arestas sobre pilastras, cuja marcação, em arco ligeiramente apontado formado por aduelas molduradas, é notória na fachada, enquadrando a janela nobre. Vencido este acesso, em rampa calcetada de inclinação suave, encontram-se as primeiras surpresa que o conjunto reserva, com a visão do portal de acesso aos pisos altos e o enorme arco abatido de abre para o pátio interior. Este recinto interior, ou claustro, é elevado, acedendo-se-lhe através de dois lances de escadas, e o seu piso térreo constitui a zona que mais elementos renascentistas conserva. De planta rectangular, tem os lados vazados por arcos abatidos (a parede fundeira tem três arcos, as laterais quatro) assentes em colunas cujos delicados capitéis lavrados possuem decoração vegetalista e antropomórfica ainda evocativa do gosto tardo-gótico nacional, e de clara influência nórdica. Voltando ao topo da rampa encontra-se o acesso aos pisos superiores, feito por uma escadaria monumental, onde ainda se podem observar vestígios de pintura mural em trompe l'oeil da segunda metade do século XVIII. Os pisos superiores, de resto, foram profundamente alterados por intervenções tardias, sendo as mais importantes do período barroco, que lhe modificaram a original feição renascentista. Porém, as primeiras intervenções foram presumivelmente ainda seiscentistas, e incluíram a construção de um corpo de ligação entre o prédio e o palácio vizinho, bem como o fechamento do piso alto do claustro. As alterações setecentistas feitas após os danos causados pelo terramoto de 1755 conduziram à reconstrução das fachadas voltadas para a rua, a algumas alterações estruturais do interior, e à decoração de todas as dependências com silhares de azulejos e tectos de madeira pintados, muitos dos quais ainda são visíveis, e constituem por si só uma boa parte da riqueza e valor artístico do conjunto.
É essencialmente a partir de finais do século XIX que principia a impiedosa degradação do monumento. O antigo jardim, com acesso pela rampa principal e por uma passagem forrada a azulejos seiscentistas, e que terá possuído alguma estatuária e azulejos quinhentistas, foi transformado em garagem. No pátio interior, uma das arcarias laterais está entaipada com um barracão arruinado, e outra foi ocupada por uma gráfica. O piso nobre é sede do Atlético Casa Pia, e a Biblioteca-Museu Luz Soriano funcionou no palácio de 1939 a 2005.
Sílvia Leite/2008/DIDA/IGESPAR, I.P.