Nota Histórico-Artistica
A igreja de Santa Maria do Castelo de Abrantes é um interessante templo quatrocentista, de carácter paroquial, mas edificado em contexto essencialmente palaciano, uma vez que não se pode dissociar a sua construção do paço que os condes de Abrantes edificaram, por essa mesma altura, no perímetro do castelo e a escassos metros do templo. A sua fundação é, todavia, mais antiga, recuando, presumivelmente, ao reinado de D. Afonso II e ao ano de 1215 (MORATO, 1860, ed. 1981, p.58).
Em posição dominante no interior da fortaleza, a igreja apresenta alguma simplicidade (DIAS, 1986, p.96), especialmente se tivermos em conta que, pela mesma década de 30 do século XV, e não muito longe, estava em plena actividade o maior estaleiro medieval português - a Batalha - e que, um pouco por todo o reino (em particular nas localidades mais ricas do litoral), a renovação e o engrandecimento dos templos era uma realidade. A fachada principal denuncia imediatamente a relativa modéstia do projecto, ao definir-se num pano único (a sugerir uma divisão interior em uma só nave e não em três), de dois registos, sendo o primeiro ocupado por um portal de duplo arco quebrado muito simples (desprovido de capitéis e de arquivoltas com aduelas decoradas) e o segundo por um óculo de abertura apertada (sem rosácea ou qualquer outro elemento pétreo).
O interior reforça esta tendência, compondo-se de dois espaços justapostos, uma nave rectangular e uma capela-mor quadrangular, mais pequena e de menor altura. O arco triunfal, apesar de amplo, é igualmente simples, de perfil quebrado e marcado apenas por impostas salientes. A iluminação é escassa, efectuada pelo óculo da fachada principal e por frestas dispostas lateralmente nas paredes da nave, e a cobertura é de madeira (incluindo a da capela-mor), ao contrário da opção pelo abobadamento que começvaa a caracterizar largamente a actividade construtiva religiosa do nosso século XV.
Se, de um ponto de vista arquitectónico, não há aqui nada que se relacione com o cenário flamejante do Mosteiro da Batalha - fazendo crer que a opção estilística privilegiou a rudeza daquele gótico desornamentado (ou despojado) do reinado de D. Afonso V (visível num dos claustros da Batalha ou na Igreja de Santiago de Palmela) -, a verdade é que os dois túmulos de D. Diogo de Almeida e de D. Lopo de Almeida, que se adossaram às paredes laterais da capela-mor, não podiam apresentar maiores semelhanças para com os túmulos da Ínclita Geração da Capela do Fundador da Batalha.
Com efeito, o tipo de "sepulcro parietal edicular", de "tampa semicilíndrica" envolvida por arco quebrado cogulhado e com gablete axialmente rematado por um arco contracurvado, que encontramos em Abrantes, corresponde à transposição de modelos ensaiados primeiramente na Batalha (GOULÃO, 1995, vol. II, p.173), analogias reforçadas pela decoração da arca e da superfície do gablete.
O século XVI acentuou o estatuto de panteão familiar da igreja, dando-se, desta forma, pleno sentido à profunda reforma quatrocentista. Os primeiros anos da centúria assistiram à construção do coro-alto, do púlpito, bem como do engrandecimento do interior, nomeadamente o revestimento azulejar com obras hispano-árabes e um retábulo-mor (de que restam ténues vestígios na parede fundeira da capela-mor); os últimos anos de Quinhentos conferiram à parede Norte da nave dois novos arcossólios de carácter funerário, para albergar os túmulos de D. João de Almeida e de D. António de Almeida. Obras vincadamente maneiristas, de arcas tumulares prismáticas envolvidas por arcos de volta perfeita, com moldura rectangular e coroamento em empena triangular, constituem a mais clara manifestação de continuidade do templo como panteão dos condes de Abrantes.
Em progressiva ruína ao longo dos últimos dois séculos, os restauros novecentistas não reverteram o aspecto de abandono do templo, facto que apenas um coerente programa de estudo e de valorização poderá resolver.
PAF