Nota Histórico-Artistica
O Colégio de Jesus foi edificado durante a Reforma do ensino universitário levada a cabo por D. João III e orientada por Frei Brás de Braga, iniciando-se com a transferência da Universidade para Coimbra. Esta reforma contemplava não só a modernização dos estudos superiores, mas também a edificação de diversos colégios na cidade mondeguina que serviam para leccionar as disciplinas de base ou para albergar os estudantes (LOBO, Rui Pedro, 1999, pp. 7-8).
A Companhia de Jesus, implantada em Portugal desde 1540, mostrou-se muito "(...) interessada em obter influência sobre o ensino preparatório e universitário (...)" devido à necessidade de preparar os seus missionários para a evangelização no Oriente, pelo que o jesuíta Simão Rodrigues decidiu fundar em Coimbra o primeiro colégio da ordem em solo português (Idem, ibidem, p. 11).
A edificação do Colégio de Jesus foi iniciada em 1547, estando o edifício situado na Alta da cidade. A primeira fase das obras arrastou-se por vários anos, e em 1560 a planta original foi modificada de modo a adaptar-se melhor ao elevado número de religiosos que iriam habitar o complexo.
Embora não haja qualquer indicação documental sobre a autoria do Colégio de Jesus, sabe-se que o projecto foi delineado por um arquitecto régio. Edificado depois da construção da Igreja de São Roque de Lisboa, o colégio coimbrão apresenta um modelo que constituí uma "evolução operativa" do templo lisboeta, pelo que o seu risco foi muito provavelmente traçado por Afonso Álvares, autor da planta da casa-mãe jesuíta na capital (idem, ibidem, p. 31).
O conjunto edificado segue um esquema utilizado desde a Idade Média em edifícios utilitários, um corpo regular de planimetria cruciforme constituído por alas, onde se inserem as celas e os respectivos corredores, e pátios internos. Este modelo difere, em determinadas soluções adoptadas na prática, do projecto desenhado pelo arquitecto. As modificações prendem-se com questões concretas relacionadas com a implantação, orientação e disposição funcional do Colégio, demonstrando a "(...) flexibilidade das soluções construídas dos estabelecimentos jesuítas (...)", mesmo que a Companhia defendesse a promoção de um programa estruturado, racional e rígido para todas as suas obras (idem, ibidem, p. 14). O Colégio de Jesus foi muito alterado na segunda metade do século XVIII devido à reforma pombalina do edifício.
A construção da igreja do Colégio de Jesus iniciou-se somente em 1598, dando origem a um edifício muito diferente das plantas primitivas. Será Baltazar Álvares, "arquitecto oficial" da Companhia de Jesus em Portugal, o autor da nova planta do templo do colégio coimbrão, fortemente influenciada pelo modelo romano de São Vicente de Fora (Idem, ibidem, p. 32).
A planta segue o esquema em cruz latina abobadada inspirado em Il Gesú de Roma, apresentando um espaço interior de nave única dividida em quatro tramos, com transepto e capelas laterais intercomunicantes, e cruzeiro coberto por cúpula semi-esférica com lanternim. Resultante de uma campanha de obras morosa, a nave do templo só foi aberta ao culto em 1640, e o templo seria oficialmente inaugurado em 1698, cem anos depois do início da construção.
A fachada do templo, embora tenha sido terminada no século XVIII, apresenta-se também muito próxima do modelo maneirista de Il Gesú (Idem, ibidem, p. 33). Composta por dois corpos sobrepostos separados por uma cornija, tem no registo inferior cinco tramos divididos por pilastras toscanas. O frontispício é marcado pela robustez dos volumes e a verticalidade da estrutura, pontuada pela abertura simétrica de janelas e pela disposição de nichos com imagens de santos jesuítas, e lateralmente foram edificadas no final do século XVII duas torres recuadas em relação ao alçado, um elemento típico na arquitectura religiosa seiscentista, que marca um contraste entre a fachada da igreja coimbrã e o seu protótipo romano.
Catarina Oliveira
IPPAR/2005
Diploma de Classificação
Decreto de 16-06-1910, DG, n.º 136, de 23-06-1910 (ver Decreto)
Número do Processo
Não disponível