Nota Histórico-Artistica
No final do século XVI e início do seguinte assiste-se, no Porto, ao estabelecimento de novas ordens religiosas que influenciam fortemente o urbanismo da cidade, ao conceberem "novos e grandiosos" edifícios inspirados pelo movimento da contra-reforma e por padrões maneiristas. As grandes obras de talha surgem também no início do século XVII, prevalecendo nos interiores das igrejas durante mais de século e meio. Neste contexto, o convento de São Bento da Vitória surge como um dos exemplos mais significativos, a par da igreja de S. Lourenço (Grilos), da igreja de São João Novo, da Casa do Cabido ou da igreja dos Carmelitas (REAL, 1993, p. 52).
Fundado em 1598 o convento de São Bento da Vitória viu começarem as obras de construção do edifício conventual, e respectiva igreja, em 1604, sob projecto do arquitecto régio Diogo Marques Lucas, que havia sido discípulo de Filipe Terzi. A conclusão dos trabalhos foi, no entanto, muito demorada, arrastando-se, sensivelmente, até 1690. Nesta data a fachada da igreja estaria adiantada, mas as campanhas decorativas no interior prolongar-se-iam significativamente até ao final século XVIII. Um processo longo, que acabaria por se reflectir na arquitectura, de tipologia maneirista e barroca, bem como ao nível da ornamentação da igreja, com obras de diferentes períodos, mas que constituem, na sua totalidade, um conjunto de grande equilíbrio.
A monumental fachada da igreja, do final do século XVII, divide-se em três registos, animados por pilastras que conferem ritmo à composição. No primeiro rasgam-se cinco arcos, no segundo, um número idêntico de nichos alberga representações escultóricas e, por fim, o terceiro, apresenta uma ampla janela, que se tornaria num emblema das igrejas beneditinas do século XVII.
De planta cruciforme, nave única com galilé, transepto saliente, e capelas colaterais intercomunicantes, a igreja reflecte as várias campanhas decorativas de que foi alvo, e que produziram obras de grande significado no contexto da história da arte portuguesa. O alçado da nave, de dois andares, é limitado por pilastras gigantes nos extremos, segundo modelos arquitectónicos já anunciados, por exemplo, em São Domingos de Benfica, em Lisboa (SOROMENHO, 1995, p. 386).
O retábulo de talha da capela-mor, executado entre 1716-19 e dourado entre 1722-25, tem vindo a ser atribuído a Gabriel Rodrigues e constitui um dos exemplos mais relevantes de retábulo de estilo nacional joanino, com tribuna e alternância de pilastras com colunas. Por seu lado, as sanefas da capela-mor denunciam uma feitura mais tardia, e um gosto que deriva da influência das obras de Nicolau Nasoni. Ainda neste mesmo espaço, o cadeiral, do final do século XVIII é um trabalho que anuncia já um gosto neoclássico (O Mosteiro de São Bento da Vitória, 1997, pp. 56-57).
Os altares colaterais, com retábulos de talha, são datados de entre 1725 e 1728, enquanto que os grandes retábulos situados nos topos do transepto, realizados pelos entalhadores José da Fonseca Lima e José Martins Tinoco, remontam aos meados do século XVIII.
No coro alto, o cadeiral de talha, é uma das obras mais emblemáticas da arte da talha, executado por Marceliano de Araújo e Gabriel Rodrigues entre os anos de 1716 e 1719. Os painéis, esculpidos em relevo e emoldurados por talha rococó, relatam episódios da vida de São Bento.
Uma última referência ao claustro principal, iniciado em 1608 e terminado entre 1725 e 1728, que revela uma tipologia arquitectónica invulgar, utilizando motivos serlianos.
Ocupado pelas tropas invasoras e nacionais durante a Guerra Peninsular, o convento viu ainda as suas instalações transformadas em hospital militar. As ocupações sucessivas e a consequente má conservação do convento, delapidaram muito do património conventual, à excepção de parte do revestimento azulejar da nave da igreja que se encontra no Museu Municipal. Actualmente, São Bento da Vitória constitui um importante pólo cultural da cidade.
RC