Nota Histórico-Artistica
Embora referido em finais dos anos quarenta do século passado (Cf. ALMEIDA, J. de, 1948), foi sobretudo nas décadas de sessenta e de setenta que se concentraram os maiores esforços para o entendimento da estação arqueológica de "Castelo da Lousa" (Cf., por exemplo, ALARCÃO, J. de, LEAL, J., ALARCÃO, A. de, PAÇO; A., 1965)
Uma designação que, na verdade, não se afastará substancialmente da sua função original, ao mesmo tempo que da memória subjacente.
Com efeito, estamos em presença de um exemplar de villae fortificadas (ou "casas agrícolas fortificadas"), "[...] a que tem sido uso, na bibliografia arqueológica, dar o nome de castella." (ALARCÃO, J. de, 1990, p. 410), depois interpretadas como postos militares, até que J. Wahl alterou consideravelmente tal perspectiva, colocando a hipótese de se tratar, justamente, daquela tipologia.
Habitualmente localizadas em terrenos pouco propícios à actividade agrícola, a implantação destas villae justificar-se-ia pela proximidade de jazidas metalíferas, cuja exploração compensaria o investimento realizado pelos cofres estatais na sua edificação e manutenção. Uma conclusão que confirmaria a tese de fortificação militar, essencial à vigilância de circulação de pessoas e bens, designadamente das entidades às quais competia manter a ordem nos territórios conquistados (Cf. Id., 1988).
Mas apesar de alguns autores manterem a ideia da ocorrência de um abandono sistemático e generalizado dos anteriores povoados de altura, como forma de pacificar as regiões e estimular o desenvolvimento, por parte das populações locais, da actividade agrícola (Id., Idem, p. 411), a realidade encontrada no terreno substanciará a sua permanência, como no caso em epígrafe, onde se encontraram artefactos que confirmarão a existência de uma ocupação anterior, da Idade do Ferro, porquanto "As paredes são construídas em alvenaria de lajes de xisto e terra, sem argamassa, assentes sobre níveis de terra correspondentes ao abandono das fases precedentes." (GONÇALVES, A., CARVALHO, P. C., 2001, pp. 183-184).
Implantada num promontório sobranceiro à margem esquerda do Rio Guadiana, e delimitada pelas rib.ªs da Lousa (que lhe deu nome) e do Montinho, a estação exibe diferentes estruturas distribuídas ao longo de várias plataformas, uma das quais claramente destinada à construção do edifício principal, cujo corpo central ostenta uma dimensão de vinte e três por vinte metros, robustecido por muros de ca de dois metros de espessura, no interior do qual se dispõem dez pequenos compartimentos em torno de um pátio centralizado numa cisterna com oito metros de profundidade. O edifício possuía um segundo piso, com um número aproximado de divisões (Id., Idem, p. 482).
Quanto às restantes edificações, perfazendo um total de dezanove compartimentos, destinar-se-iam a alojamento pessoal e armazenamento de bens (GONÇALVES, A., CARVALHO, P. C., Idem, p. 183).
Para além de materiais de construção, como tegulae - telhas rectangulares - e imbreces - telhas em forma de meia cana -, os artefactos recolhidos no local permitem falar de uma ocupação contínua do mesmo entre o século I a. C. e o século I d. C.. São disso exemplo, entre outros (como um conjunto de fíbulas), os fragmentos de cerâmica comum romana, campaniense (de importação) e "terra sigillata" (de paredes finas) itálica, revelando, nestes últimos dois casos, uma população instituída de alguns recursos económicos, como revelará, ademais, a própria configuração do edifício principal (vide supra).
Actualmente, e na sequência da criação da barragem do Alqueva, que causou a inundação dos terrenos da estação arqueológica, a fortificação encontra-se integralmente submersa, envolvida com sacos de areia cobertos por uma pasta de cimento, para evitar o desgaste provocado pelas águas.
AMartins, 2005 / Sílvia Leite, DIDA, 2009