Nota Histórico-Artistica
Localizado na antiga Estrada de Benfica, que passava diante da sua fachada principal, o palacete é um dos poucos vestígios da relevância desse antigo eixo viário (que continuava por Venda Nova e Reboleira), mas também um dos raros exemplos sobreviventes de um tempo construtivo e cultural que terminou com a cavalgante urbanização do antigo termo de Lisboa, verificada nas últimas décadas. A sua escala relativamente reduzida, a que se associa um espaço verde privado, constituem marcas inequívocas de um momento em que algumas importantes famílias da capital procuraram estabelecer a sua residência em zonas da periferia, onde desfrutavam da calma e qualidade do campo. Na actual freguesia de São Domingos de Benfica, essa realidade é ainda apreensível, uma vez que subsistem algumas dessas antigas quintas, como a da Alfarrobeira ou a do Béau-Séjour (ambas classificadas), e outras, de que se destacam as do Vadre, Lameiro ou Devisme.
Apesar do desconhecimento acerca dos primeiros proprietários e respectivo meio cultural (que determinou a edificação do monumento), não restam dúvidas sobre o grande impacto da obra na antiga via. Implantado entre a Estrada de Benfica e a actual Rua Alfredo Guisado, o edifício forma um cenográfico recanto, cujos dois corpos longitudinais da construção enquadram uma monumental entrada e um pequeno espaço verde dianteiro. O portão, em dupla porta de ferro, é limitado lateralmente por dois quadrangulares pilares de almofadados, sobrepujados por jarrões sobre plataforma, e tem acesso a partir de uma pequena rampa, que lhe confere um relativo ar sobranceiro sobre a via pública.
A actual fachada principal do edifício dá para a Estrada de Benfica e organiza-se em dois panos assimétricos de três andares, limitados por pilastras. O pano menor localiza-se na extremidade do conjunto e compõe-se por vão único em cada andar, sendo o inferior uma porta de arco abatido, e os dois restantes abrindo para pequenas varandas protegidas por gradeamento de ferro. O pano maior repete a tipologia de vãos do anterior, mas ostenta três em cada registo, diferenciando as aberturas do piso térreo: uma porta de dimensões menores que a do pano extremo e duas janelas de arco abatido, protegidas por gradeamento. O alçado é delimitado por pilastras-cunhais e, sobre ele, a toda a extensão da fachada, existe uma balaustrada de cantaria, segmentada em quatro secções, que reforça o carácter cenográfico da estrutura. O telhado é de quatro águas, entrecortado axialmente em relação ao alçado por janelas de mansarda, cada uma dando para um dos lados do corpo. A fachada lateral mantém a mesma organização cenográfica e simétrica, sobrepujada por balaustrada, contendo três janelas em cada andar, molduradas e de arco de volta perfeita.
O segundo corpo segue a mesma organização do principal, mas, por se encontrar recuado em relação a este, é mais estreito, sendo a fachada lateral fenestrada por uma única janela (em vez das três que seccionam o alçado lateral do corpo principal). Também por se encontrar ligeiramente elevado em relação à via pública, este corpo tem apenas dois andares, contendo o inferior a entrada (a que se acede por ampla escadaria). Finalmente, o conjunto era rodeado por um pequeno jardim privado, ainda conservado na sua quase totalidade, apesar da construção de alguns anexos, de data indeterminada, nas traseiras.
Nas últimas décadas, a degradação do imóvel acentuou-se bastante, ruindo parte da balaustrada e do telhado, o que afectou algumas parcelas do interior. Paralelamente, a falta de tratamento do jardim levou ao crescimento descontrolado do arvoredo envolvente, que resultou na adulteração visual de todo o conjunto e da própria configuração original do jardim. Não obstante este facto, a importância do monumento para a Lisboa oitocentista não se alterou, reforçando-se, hoje em dia, a necessidade da sua preservação, como testemunho ímpar de um tempo local de quintas e casas de campo às portas da grande cidade.
PAF