Nota Histórico-Artistica
Imóvel
O edifício da Antiga Estação Elevatória de Águas do Recinto da Praia, hoje Museu do Fado, é composto por um conjunto de três corpos e um reservatório de água subterrâneo. Trata-se de um imóvel construído de raiz, em 1868, para servir de estação elevatória, sendo bem patente uma arquitetura funcional e sóbria mas de grande elegância. De notar o ritmo dos pilares, arcos e vãos existentes na fachada principal, igualmente marcada pelos cunhais em cantaria.
Os três corpos apresentam coberturas de quatro águas destacando-se, ao centro, o edifício mais alto com grande arco de volta perfeita totalmente envidraçado. A entrada faz-se atravessando um gradeamento em ferro sendo o portal composto por colunas e trave igualmente em ferro. Nos corpos laterais, de desenho idêntico, observam-se, ao nível do piso térreo, uma porta e duas janelas com verga arqueada enquanto, no piso superior, três janelas retangulares dispõem-se ao baixo. De notar que todos os vãos são emoldurados por cantaria de calcário. Os corpos são rematados por platibanda em muro, precedida de cimalha.
No interior, transformado hoje em "Museu do Fado e da Guitarra Portuguesa", podem visitar-se espaços multifuncionais como o núcleo museológico com exposição permanente, o espaço dedicado a exibições temporárias, o Centro de Documentação, a loja, o pequeno auditório, a escola onde são ministrados cursos de guitarra e fado e, por fim, o restaurante/cafetaria.
História
A designação do edifício como "Estação Elevatória de Águas do Recinto da Praia", liga-se à memória da existência de uma praia onde os navios acostavam para fazer a aguada (recolha de água). De facto, desde o século XVI que, neste local, existia um fontanário designado como Chafariz de Fora (ou Chafariz da Praia) em contraponto ao de Dentro.
Iniciada a sua construção em 1868, esta estação elevatória é considerada como um dos mais importantes edifícios de equipamento do século XIX português, tanto pela sua qualidade arquitetónica, como pelo carácter específico da função a que se destinava. De notar que pouco antes da sua fundação, tinha sido criada a Companhia das Águas de Lisboa. Trata-se, também, de um imóvel que representou a última tentativa de aproveitar as fontes de Alfama para abastecer a zona dos Bairros Orientais, águas estas que eram conhecidas desde a antiguidade. A riqueza das fontes nesta zona é facilmente comprovada pela existência de três importantes chafarizes que, durante muitos séculos, abasteceram toda a cidade (Chafariz D'el Rei, Chafariz de Dentro e Chafariz da Praia).
A função original desta estação elevatória era bombear água para o Reservatório da Verónica localizado nas proximidades (Rua da Verónica). Um pouco mais tarde foi construída a Estação Elevatória dos Barbadinhos (1880), ficando a Estação da Praia como depósito de retaguarda.
Nos finais do século XIX, inícios do XX, a distribuição dos espaços era feita seguindo as diferentes funções a que se destinavam: o corpo central, com grande arco, dava aceso à zona da oficina dos torneiros no piso térreo; o edifício nascente tinha também ao nível do piso térreo as prensas e os cortadores enquanto o piso superior servia para escritórios; o edifício poente, por sua vez possuía, ao nível térreo, as cozinhas, os lavabos e os depósitos, enquanto, no piso superior, estavam instalados os escritórios e o refeitório.
A partir de 1880 a Estação Elevatória da Praia passou a ter um estatuto de reserva na estratégia de abastecimento de água à cidade mas, na década de 60 do século XX, acabou por fechar definitivamente as suas portas devido à modernização dos sistemas. Depois de permanecer devoluto cerca de duas décadas, o edifício albergou o "Centro de Trabalho do Partido Comunista Português" sendo que, em 1998, se instala definitivamente o "Museu do Fado e da Guitarra Portuguesa" com projeto de recuperação e ampliação da autoria de João e José Daniel Santa-Rita.
Maria Ramalho/DGPC/2017.