Nota Histórico-Artistica
A igreja da Misericórdia de Santarém, de estrutura em hall church (igreja-salão) do fim do Renascimento, deve a sua traça ao risco do arquitecto régio, Miguel Arruda, cerca de 1559, tendo sido erguida em campanhas dirigidas pelos mestres pedreiros Simão Fernandes e Álvaro Freire que, por diversas circunstâncias, se prolongaram até início do século XVII.
Em 1502, Frei Martinho de Santarém instituíu a Santa Casa da Misericórdia escalabitana, segundo indicação de Frei Miguel de Contreiras, que havia fundado, quatro anos antes, a Irmandade da Santa Casa da Misericórdia, em Lisboa. A Misericórdia de Santarém recebeu de D. Manuel I, nos finais da primeira década do século XVI, os mesmos privilégios da instituição lisboeta, gozando a partir de então de protecção régia.
Esta igreja da Misericórdia aproxima-se estéticamente de outras igrejas-salão do meado do século XVI, entre as quais a igreja de Santo Antão de Évora, as Sés de Miranda, de Leiria, de Portalegre e de Goa e, ainda, das igrejas de Santa Maria de Estremoz, de Veiros e de Santa Maria de Olivença.
Da fábrica quinhentista, acaso o mais impressionante dos espaços arquitectónicos do século XVI em Santarém (Vítor SERRÃO, 1990) , destacamos a planimetria interior que segue, como referimos, a tipologia clássica das igrejas-salão, de três naves com quatro tramos a igual altura. A nave central possuí uma abóbada de cruzaria de nervuras sustentada, quer por robustas colunas toscanas decoradas com brutescos a ouro pelos pintores André de Morales e Sebastião Domingues, em 1630; quer por mísulas adossadas às sancas que se localizam nos panos murários laterais, pintadas com brutesco pelo pintor lisboeta José de Sousa em 1714.
No ano de 1606 ficou concluída a primitiva fachada da igreja executada pelo mestre pedreiro do Senado Municipal, Luís Rodrigues, autor da varanda clássica do corpo adjacente à fachada. Mas o terramoto de 1755 acabou por destruir parte da frontaria, tendo-se, por este motivo, optado pela sua reconstrução, desta feita seguindo uma linguagem plástica rococó.
Para Jorge Custódio "esta igreja tardo-renascentista, nos alvores da caminhada maneirista da arquitectura scalabitana do séc. XVII, revela-se uma obra acabada na linguagem da proporção, harmoniosa na conjugação de elementos clássicos(as colunas toscanas e os barretes acima dos capitéis) e medievais (as nervuras das abóbadas e os bocetes de fecho) e perfeita em termos de equilíbrio das forças da arquitectura" (Jorge CUSTÓDIO, 1996).
R.F.F.
Diploma de Classificação
Decreto n.º 8 518, DG, I Série, n.º 248, de 30-11-1922 (voltou a classificar como MN) (ver Decreto)
Decreto n.º 8 218, DG, I Série, n.º 130, de 29-06-1922 (classificou como MN) (ver Decreto)
Número do Processo
Não disponível