Nota Histórico-Artistica
A ermida de Santo António integra-se num conjunto arquitectónico, recuado em relação ao enquadramento urbano, e que compreende para além da ermida, uma casa de habitação, de grandes dimensões ligada a um pequeno edifício de dois pisos, onde já esteve instalada a sacristia da igreja.
A casa apresenta uma planta em forma de L, com torreão. Na fachada principal, destaca-se a escadaria, revestida por azulejos azuis e brancos, que termina num alpendre de reduzidas dimensões. Uma galeria estabelece a ligação entre a casa e a capela. O interior do imóvel é todo ele revestido por painéis de azulejo, muitos dos quais provenientes do Pavilhão dos Desportos, em Lisboa, depois da sua aquisição pelo então proprietário da Quinta, comandante Santos Fernandes, no início do século XX. Estes azulejos deverão ter sido integrados no decorrer do restauro do imóvel, que seguiu o projecto traçado pelo arquitecto Pardal Monteiro, em 1914. No pátio que antecede a Casa e a capela, destaca-se o poço, ao centro. A área posterior corresponde à Quinta.
A edificação da ermida deverá remontar ao final do século XVI, por doação de D. Francisca Rodrigues, viúva de Duarte Rodrigues Pimentel, fidalgo de D. João III, ocorrida em 1590 (RAMA, 1906, p. 45).
De acordo com a inscrição patente na galilé, em meados do século XVIII (1744) a ermida foi alvo de uma campanha de obras de ampliação, mandada executar a expensas de Francisco de Novaes Quesado Pimentel de Faria Cerveira, que pretendia aqui sepultar a sua família. Remonta a esta época a colocação do seu brasão no arco triunfal.
Com o Terramoto de 1755, a igreja sofreu grande ruína, pelo que, em 1789, decorria nova intervenção, custeada por Simão Neto Pereira Pato de Novais Pimentel. Até esta data, a ermida e a Quinta permaneceram na mesma família que as instituiu. No entanto, a filha de Simão Pimentel, a quem couberam, por herança, os bens patrimoniais da família, casou com o segundo marquês de Soidos, D. António Luís Pereira Coutinho Pacheco de Vilhena da Fonseca e Brito de Mendonça Botelho, família à qual passa, então, a pertencer toda a propriedade (GRAÇA, 1989, p. 79).
As obras da última campanha parecem nunca ter sido totalmente concluídas (RAMA, 1906, p. 46) e com o advento do liberalismo, a ermida esteve interdita ao culto durante mais de um século. A sua reconstrução, a pedido do novo proprietário, António Santos Fernandes, data já do século XX, e esteve a cargo do Arquitecto Pardal Monteiro, que desenhou o projecto em 1919. A sua execução, sob orientação e colaboração do Padre Pólvora decorreu entre os anos de 1940 e 1953.
A intervenção recaiu sobre a fachada, tendo sido recuada a entrada com o objectivo de criar uma pequena galilé, ao mesmo tempo que se integrou a rosácea, o campanário, e os três vitrais sobre as janelas, executados nos anos 40 por Ricardo Leone. Note-se que o painel de azulejos existente na galilé é idêntico aos da nave, o que vem corroborar a ideia de que a igreja englobava o espaço que hoje conhecemos como galilé. Resulta desta campanha uma estrutura arquitectónica de grande simplicidade, empregando uma linguagem clássica de gosto revivalista, que se deverá, em muito, à intervenção do arquitecto Pardal Monteiro.
No interior, destacam-se os painéis de azulejo que revestem a nave da ermida, azuis e brancos, mas com moldura policroma de gosto rocaille, que representam cenas da vida de Santo António. Estes deverão remontar à campanha de obras do final do século XVIII, tal como retábulo de talha dourada da capela-mor.
Uma intervenção arqueológica de 2009, efectuada em toda a área da Ermida, permitiu identificar 11 enterramentos e um ossário, dos séculos XVI a XVIII. (Rosário Carvalho)