Nota Histórico-Artistica
A estrutura urbana de Marvão obedece à primitiva organização medieval. Supomos que o amuralhamento da vila foi efectuado na sequência da (re)construção do castelo patrocinada por D. Dinis, uma vez que parece haver uma certa continuidade entre o que resta do castelo e a cerca que delimita o povoado. Em 1361, no reinado de D. Pedro, o monarca foi obrigado a tomar medidas contra o despovoamento da vila, o que indica ter Marvão iniciado já o seu declínio populacional.
A cerca define uma planta rectangular irregular, de ângulos cortados, e é rasgada por três portas, todas dotadas, no século XVII, de esquemas defensivos abaluartados, à maneira das grandes fortalezas da época da Restauração da Independência. O principal acesso localizava-se a Nordeste e era conhecido como "Portas da Vila". Na actual configuração, compõe-se por entrada em cotovelo, a que se associa um desenvolvido baluarte de dupla porta e dois cubelos circulares. A Noroeste, existem as Portas de Ródão, hoje entrada principal na vila e igualmente protegida por baluarte estrelado, composto por dupla porta e dois níveis de aquartelamento. A terceira entrada, menos conhecida, situa-se a Nascente e denomina-se Postigo do Cubelo ou do Torrejão. Na época medieval, era a porta menos utilizada, mas na Restauração foi dotada de amplo baluarte de três secções e duas poderosas torres. Entre estas três portas, para além da cerca medieval, existe uma segunda linha de muralhas, construída no século XVII, que reforça o sistema defensivo e cria uma comprida liça que, em caso de ataque, ajuda a conter as tropas inimigas uma vez ultrapassada a primeira muralha.
Urbanisticamente, Marvão dispõe de dois eixos viários fundamentais, que já o eram na época medieval. O primeiro é o que liga as Portas da Vila ao Castelo, cruzando diagonalmente o burgo, à maneira das medievais Ruas Direitas, através das actuais Ruas das Portas da Vila, do Espírito Santo e do Castelo. O segundo eixo é menor, mas segue também uma orientação diagonal, colocando em comunicação as Portas de Ródão com a antiga Rua Direita, através da actual Rua de Cima. Estes dois eixos são recortados lateralmente por outros arruamentos e muitas escadinhas (onde se sucedem portas de arcos apontados), e cruzavam-se na praça principal, hoje Praça do Pelourinho, onde se localizava precisamente este símbolo de autoridade municipal e a Casa da Câmara. Esta, convertida na actualidade em Casa da Cultura, desempenhava também as funções de cadeia (como ainda se pode ver pelos gradeamentos das janelas inferiores que dão para a face Norte) e, apesar de ter sido bastante remodelada no século XX - altura em que a fachada Sul foi integralmente refeita com uma solução ameada -, mantém genericamente as características essenciais no alçado Norte, onde, ao centro de um dos pisos superiores, se conservam esferas armilares, sinal das obras levadas a cabo no reinado de D. Manuel.
Quanto à arquitectura religiosa, Marvão possui algumas interessantes igrejas, de que convém salientar a de Santiago, por conservar ainda características góticas, eventualmente do século XIV. O seu portal principal, de arquivoltas apontadas inscritas em gablete, lembra o da Nossa Senhora da Estrela, mas deverá ser-lhe anterior; o corpo mantém a estrutura gótica, de três naves separadas por arcarias apontadas. No extremo oposto, junto ao castelo, localiza-se a Igreja de Santa Maria (actualmente convertida em Museu Municipal). É uma obra de raiz gótica muito transformada no século XVI, quer na fachada principal, quer no interior. A igreja do Espírito Santo, ligada à Misericórdia, implanta-se no local onde anteriormente existiu uma instituição de assistência e data também do século XVI.
Nos últimos anos, o conjunto monumental intra-muros foi objecto de grandes restauros, criando-se numerosas zonas verdes e de miradouro, assim como se beneficiaram inúmeras casas privadas, que em muito contribuem para a intenção municipal de candidatar a vila a Património Mundial.
PAF