Nota Histórico-Artistica
A existência de uma ermida de Nossa Senhora de Vila Velha de Fronteira remonta ao século XIII, acreditando-se ter sido fundada em data próxima de 1226 (KEIL, 1943). Contudo, nada resta desta primitiva capela, a não ser, eventualmente, os contrafortes que apoiam a estrutura actual, "algumas cabeceiras de sepultura e uma tampa de sarcófago com inscrição muito apagada, mas que deve ser do século XVIII" (IDEM).
Na realidade, uma campanha de meados do século XVII reedificou a antiga ermida, transformando o espaço e imprimindo-lhe um sentido muito gráfico e de quase "horror ao vazio", bem presente nas pinturas murais e nos azulejos de tapete que revestem a totalidade do seu interior. Não se conhece com exactidão a data desta reestruturação, mas o registo de azulejos sobre o arco triunfal, representando a Virgem, com a legenda referindo "N. Sra. De Villa Velha de Fronteira", exibe a data de 1648, o que nos ajuda a balizar, pelo menos, a colocação dos azulejos, fazendo remontar esta intervenção á primeira metade do século XVII (SIMÕES, 1997, vol. II, p. 208).
A fachada principal exibe galilé de cinco arcos de diferentes dimensões, a que se sobrepõe um janelão. É contrafortada em rampa, nas extremidades do alçado, situação que se repete na fachada lateral, também contrafortada. O volume correspondente à capela-mor, coberto por lanternim, é rematado por uma alternância de coruchéus e esferas.
No interior, a nave rectangular e a capela-mor, de planta circular, são revestidas por azulejos de padrão, que enquadram as pinturas murais e os arcos de cantaria, terminando na sanca, a partir da qual se projecta o tecto em caixotões com pintura de temática religiosa.
Os azulejos foram identificados por Santos Simões, de acordo com o estabelecido no seu Corpus da Azulejaria do século XVII, como sendo o padrão n.º 401, o friso n.º 10 e a cercadura n.º 71. Contudo, o próprio levanta algumas dúvidas em relação ao padrão, que pensamos aproximar-se mais do n.º 431, pertencendo à família dos quadrílobos, e muito em voga na década de 1640, embora o seu uso se tenha prolongado até ao século XVIII (SIMÕES, 1997, vol. I, p. 72). O coro ergue-se sobre a galilé, e os arcos da nave exibem telas com a representação de cenas da vida de Cristo e de Nossa Senhora a que se acrescenta uma Visão de Santo António. Os dois altares colaterais são em talha dourada e em alvenaria, encontrando-se junto a um deles a pintura a fresco do Juízo Final O tecto, em abóbada de berço, é dividido em caixotões, com pinturas identificadas por legendas, e que representam episódios da Virgem de Cristo, e de alguns santos.
Na capela-mor, de planta circular, o retábulo é de alvenaria e o tecto segue o mesmo esquema de caixotões com pinturas de cenas da vida da Virgem. Os azulejos exibem um padrão ligeiramente diferente do da nave, o que levou Santos Simões a defender tratar-se de uma reposição bastante recente (SIMÕES, 1997, vol. II, p. 208). Neste contexto, importa chamar a atenção para uma das particularidades da aplicação do azulejo no nosso país, que é a de respeitar as pré-existências, ajustando-se aos elementos arquitectónicos, que contorna e destaca.
Respeitando tonalidades semelhantes, a pintura e o azulejo conjugam-se aqui de forma exemplar, criando um espaço etéreo em que a arquitectura parece desmaterializar-se para dar lugar aos brilhos e tonalidades que revestem todo o interior, mas que não deixam de respeitar um amplo programa iconográfico, merecedor de um estudo mais específico e integrado.
(Rosário Carvalho)