Nota Histórico-Artistica
Antes do actual palacete neo-árabe que domina a propriedade, existiram outras formas de aproveitamento desta quinta, num processo que recua aos inícios do século XIX, mas que pode, eventualmente, ter origens ainda mais antigas. O mais antigo registo de que temos conhecimento remonta aos primeiros anos de Oitocentos, altura em que a propriedade estava na posse de "um certo Padre Jerónimo" que, poucos anos depois, a "legou aos antepassados do 15º Conde do Redondo", D. Fernando Maria de Sousa Coutinho Castelo Branco e Meneses, titular da herdade em 1850 (STOOP, 1986, p.306).
Da quinta então usufruída por estes homens, nada hoje resta, mas ainda é possível ter uma percepção genérica do que teria sido pelos desenhos de Domingos Schiopetta (1829) e Clémentine Brelaz, e pelas notas do viajante inglês William Beckford. Assim, a Quinta ficou a dever o seu nome a uma poderosa torre que, com os seus numerosos sinos, "dava as horas ao som de vários minuetes". Supomos que fosse uma torre setecentista, pois ela haveria de ser demolida por volta de 1800, altura em que o banqueiro Thomas Horn construiu, em sua substituição, um edifício habitacional de veraneio. Disso mesmo nos dá conta Beckford, que já não descreveu a torre, e Brelaz, que não a desenhou, sintomas de que, já pelas décadas centrais do século XIX, a torre havia desaparecido.
Nos anos 50 de Oitocentos, a história desta propriedade haveria de mudar drasticamente. Adquirida por Manuel Pinto da Fonseca, traficante de escravos com o Brasil e cognominado o "Monte Cristo", pelas múltiplas viagens e vida atribulada, as anteriores construções foram demolidas, para dar lugar a um dos mais exóticos palácios privados sintrenses. Inspirando-se possivelmente nas suas viagens (IDEM, p.306) tendo em vista o acesso à sociedade erudita, culta e endinheirada da Nobreza de Corte (ANACLETO, 1994, p.116), optou por uma estética neo-árabe, para o que contratou o arquitecto António da Fonseca Júnior, que encontrou também importantes sugestões estilísticas na própria serra de Sintra, em particular nos palácios da Pena e de Monserrate.
A obra é uma das mais marcantes construções românticas da zona. De planta longitudinal regular, apresenta estrutura volumétrica tripartida, com corpo central mais alto e estreito, ladeado por outros dois, simétricos entre si. Aquele é ameado e possui galilé com tripla arcada de arcos ultrapassados, dotados de moldura exterior, que repousam em capitéis vegetalistas de decoração estilizada e finas colunas. Interiormente, essa arcada tem correspondência com outros três vãos, de perfil idêntico, sobrepujados por cartelas horizontalizantes com inscrições em árabe (ilustrando a divisa que os reis de Granada fizeram imprimir em edifícios dessa cidade) e óculos de perfil circular irregular, estando o alçado integralmente pintado com listas horizontais, alternadamente brancas e vermelhas. Os dois corpos laterais mantêm parcialmente essas faixas, e integram duas portas de arco ultrapassado, rasgadas harmonicamente no alçado.
O exotismo deste pavilhão não dispensa o investimento realizado pelo proprietário no jardim, com o qual a arquitectura se complementa. Duas araucárias ladeiam a fachada principal e enquadram uma fonte de tanque circular, que antecede o edifício e lhe confere maior monumentalidade. No restante jardim, é comum encontrarem-se magnólias, fetos, camélias e buxos, numa combinação exótica e demonstradora do requinte a que Manuel Pinto da Fonseca aspirava, a que não falta mesmo um pequeno lago coberto por nenúfares.
Não será difícil perceber o sucesso desta obra pela segunda metade do século XIX, a ponto de o rei D. Carlos e D. Maria Amélia de Orleans aqui terem passado a sua lua-de-mel, em Maio de 1886. No campo estrito da História da Arte, é uma das mais importantes peças privadas do neo-árabe, num país que foi muito mais sensível ao neo-gótico por via inglesa que à herança de mais de cinco séculos de presença islâmica no nosso território.
PAF
Diploma de Classificação
Decreto n.º 67/97, DR, I Série-B, n.º 301, de 31-12-1997 (ver Decreto)
Edital N.º 255 de 23-09-1996 da CM de Sintra
Despacho de autorização de 12-08-1996 do Ministro da Cultura
Parecer de 18-06-1996 do Conselho Consultivo do IPPAR a propor a classificação como IIP
Despacho de concordância de 18-11-1993 do presidente do IPPAR
Parecer de 3-11-1993 do Conselho Consultivo do IPPAR a propor a abertura da instrução do processo de classificação
Proposta de classificação de 13-04-1993 da CM de Sintra, após deliberação de 1-04-1993